OPINIÃO

Idéias e opiniões socialistas sobre Sorocaba

PARTE 3 – A JORNADA DE TRABALHO

PARTE 3 

A JORNADA DE TRABALHO 

Nem bem nasceu, o capital sente a necessidade imediata de alimento para se desenvolver. E o capitalista, que vive somente para a vida do capital, preocupa-se atentamente com as necessidades deste ser, tornando-se o seu coração e sua lama, sabendo como alimentá-lo. 

O primeiro meio empregado pelo capitalista em beneficio do capital é o prolongamento da jornada de trabalho. Obviamente, a jornada de trabalho tem seus próprios limites. Antes de mais nada, um dia não tem mais de 24 horas. Dessas 24 horas, já se tem que eliminarem umas tantas, pois o operário precisa satisfazer suas necessidades físicas e espirituais: dormir, comer, descansar para criar nova força, ler, passear, etc. Fala Marx: Mas estes limites são, por si mesmos, muito elásticos e deixam muito espaço para manobra. Assim, encontramos jornadas de trabalho de 6, 10, 12, 14, 16 e 18 horas, ou seja, das mais variadas durações e o capitalista comprou a força de trabalho pelo seu valor diário. Com isto, ele adquiriu o direito de fazer trabalhar, durante todo um dia, o trabalhador que esta a seu serviço. Mas o que é afinal um dia de trabalho? Em todos os casos, é menor do que um dia natural. Mas, de quanto? O capitalista tem sua própria maneira de ver a questão sobre o limite necessário da jornada de trabalho. O tempo durante o qual o operário trabalha, é o tempo durante o qual o capitalista consome sua força de trabalho, que ele comprou do seu operário. Se o assalariado consome o tempo que tem disponível, para si mesmo, ele está roubando o capitalista.O capitalista não se apóia em outra coisa que não seja a lei das trocas das mercadorias. Ele, como todo comprador, procura tirar da mercadoria, do seu valor de uso, o maior beneficio possível. Mas eis que o operário levanta a voz e diz: 

“A mercadoria que te vendi se distingue de todas as outras mercadorias, porque o seu uso cria valor, e um valor maior do que seu próprio custo. E é por isso que compraste. O que para ti parece ser crescimento de capital, para mim é excesso de trabalho. Tu e eu não conhecemos outra lei, que não seja a da troca das mercadorias. O consumo da mercadoria não pertence ao vendedor, que a aliena, mas o comprador, que a adquire. O uso de minha força de trabalho te pertence, pois. Mas com o preço diário de sua venda, eu devo todos os dias poder reproduzi-la, para vendê-la de novo. Tirando a idade e outras causas naturais de desgastes, preciso amanhã estar tão forte e capaz como hoje, para retomar o meu trabalho com a mesmíssima força. Tu me pregas constantemente o evangelho da “economia” e da “abstinência”. Taí! Quero ser um administrador sábio e inteligente para economizar a minha única fortuna: minha força de trabalho; devo abster-me, portanto, de qualquer esbanjamento. Quero, diariamente, coloca-la em movimento, pô-la a trabalhar, enfim, gasta-la apenas quando for compatível com sua duração normal e seu desenvolvimento natural. Além do que, com um prolongamento na jornada de trabalho, podes em um só dia mobilizar uma quantidade tão grande de minha força de trabalho que não vou repô-la nem com três jornadas. O que ganhas em trabalho, eu perco
em substancia. Presta, pois, muita atenção: o emprego de minha força de trabalho e o seu desfrute são duas coisas distintas, muito distintas. Se eu, como operário, vivo em média 30 anos, trabalhando num ritmo médio razoável, e tu consomes aminha força de trabalho em dez anos, tu não me pagas mais do que um terço de seu valor diário; portanto roubas de mim,todos os dias, dois terço de minha mercadoria. Exijo,pois, uma jornada de trabalho de duração normal, e a  exijo sem apelar para seu coração, porque em negócios não se põe sentimento. Tu podes ser um burguês modelo; até pertencer à Sociedade Protetora dos Animais  e, ainda por cima, exalar cheiros de santidade… Pouco importa o que representas. És inteiramente estranho aos interesses do meu coração. Exijo a jornada normal, porque quero o valor da minha mercadoria como qualquer outro vendedor.
 Come se vê, estamos entre limites muitos elásticos e a natureza mesma da troca não impõe nenhum limite a jornada de trabalho. O capitalista mantém seu direito como comprador, quando procura prolongar a jornada de trabalho o máximo possível e tentando fazer de dois dias, um só. Por outro lado, a natureza especial da mercadoria vendida exige que o seu consumo pelo comprador não seja ilimitado, e o trabalhador mantém seu direito como vendedor, quando quer restringir a duração da jornada de trabalho a uma duração normalmente determinada. Direito contra direito, entre o capitalista e o trabalhador, de acordo com a lei de trocas das mercadorias, há um empate. E, o que decide entre dois direitos iguais? A força. 

Como se emprega essa força, que hoje é toda do capital e para o capital, nos dirão os fatos que agora exporemos. O que vamos contar neste livro são quase todos os episódios do capital na Inglaterra. Em primeiro lugar, porque foi lá o pais em que a produção capitalista chegou ao máximo desenvolvimento (obs. este livro foi escrito em 1878); e em segundo lugar,porque somente na Inglaterra encontramos uma material adequados de documentos, falando das condições de trabalho e recolhidos por obra de comissões governamentais,instituídas para este fim. Os modestos limites deste manual não nos permitem, entretanto, reproduzir mais do que uma pequeníssima parte do rico material recolhido na obra de Marx. Eis aqui alguns dados de uma pesquisa feita entre 1860 e 1863, na indústria de cerâmica:  

W. Wood, de nove anos, tinha 7 anos e meio quando começou a trabalhar. Wood trabalhava todos os dias da semana, das 6 da manhã até às 9 da noite, ou seja, 15 horas por dia. J. Murray, de 12 anos, trabalhava numa fábrica, trazendo as formas e girando uma roda. Ele começava a trabalhar às seis da manhã, às vezes, às quatro; seu trabalho era prolongado de tal modo, que muitas vezes entrava pela manhã seguinte adentro. E isto em companhia de outros 8 ou 9 meninos que eram tratados do mesmo modo do que ele. 

O médico Charles Parsons assim escreveu a um comissário do governo: “Falo com base em minhas observações pessoais e não sobre dados estatísticos. Não posso esconder minha revolta ao ver o estado destas pobres crianças, cuja saúde é sacrificada por um trabalho excessivo, para satisfazer a cobiça dos seus pais e de seus patrões.” 

Ele enumera ainda vários casos de doenças e conclui a relação com a causa principal: as longas horas de trabalho. Nas fábricas de fósforos, a metade dos trabalhadores eram crianças com menos de 13 anos e adolescentes com menos de 18 anos. Somente a parte mais pobre da população cede seus filhos a esta indústria tão insalubre e imunda. Entre as vitimas interrogadas pelo comissário White, 270 não tinham mais que 18 anos; 40 tinham menos de 10 anos; 12 tinham 8 anos e 5 tinham apenas 6 anos. A jornada de trabalho nessas fábricas variava entre 12, 14 e 15 horas. Eles trabalhavam durante a noite e comiam nas poucas horas incertas, quase sempre no mesmo local de produção, tudo empestado pelo fósforo.  

Nas fabricas de tapete, nas épocas de grande movimento, como nos meses que antecedem o Natal, o trabalho durava, quase sem interrupção, das 6 da manhã, até às 22 horas. No inverno de 1862, de 19 meninas, 6 contraíram doenças por causa do excesso de trabalho. Para mantê-las acordadas durante o trabalho, era necessário estar sempre gritando e sacudindo-as. As mesmas viviam tão cansadas, que não podiam manter os olhos abertos.  Um operário depôs à Comissão de Inquérito nestes termos: 

“Este meu garoto, quando tinha 7 anos de idade, eu o levava nas costas, por causa da neve, da casa para a fábrica, da fabrica para a casa. Meu garoto trabalhava normalmente 16 horas por dia. Muitas vezes, tive de me ajoelhar para alimentá-lo, enquanto ele estava na máquina,porque nem podia abandona-la, nem desligá-la.” 

Pelos fins de junho de 1863, os jornais de Londres destacavam em suas manchetes a morte de uma costureira de 20 anos, por excesso de trabalho. Ela morrera nas dependências da manufatura em que trabalhava. A jornada de trabalho nessa manufatura era de 16 horas e meia por dia. Entretanto, por causa de um baile no palácio do governo, para quem a empresa executava encomendas, suas operarias tiveram que trabalhar 26 horas e meia, sem parar. Eram cerca de 60 moças que trabalhavam em péssimas condições, espremidas no reduzido espaço da oficina. A modista das manchetes do dia seguinte, além disso, dormia em um quarto muito estreito e sem ventilação. Ela morrera antes de concluir sua jornada de trabalho. O médico chegou tarde de mais. Em seu laudo, além de observar as condições de trabalho das costureiras, assinalou a causa mortis: excesso de trabalho.  Em uma das regiões mais populosas de Londres, morriam anualmente, 31 entre cada 1000 serralheiros. E o que pode ter a natureza humana contra essa profissão? Nada! Mas o excesso de trabalho tornou-a destrutiva para o homem. Assim, o capital, tortura o trabalho, o qual depois de muito sofrer, procura finalmente, defender-se. Os trabalhadores se organizam e exigem que o Estado determine a duração para a jornada de trabalho. E o que se pode esperar disso? Resposta fácil, considerando que a lei é feita e aplicada pelos mesmos capitalistas: os operários deveram estar sempre atentos às medidas tomadas pelos patrões e unidos para protegerem suas vidas. 

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3 Respostas to “PARTE 3 – A JORNADA DE TRABALHO”

  1. HERNANDS said

    GOSTEI DO ARTIGO, CONTRIBUIPARA NA PRODUÇÃO DE SEMINARIO NO QUAL ESTOU ABORDA O TEMA :MAIS – VALIA E OS SEUS EFEITOS NA SAÚDE DO TRABALHADOR.

  2. Hedinara said

    Bom dia, gostaria de saber o autor, data…. referncias bibliograficas sobre este text ótimo…
    para colocar no trabalho da faculdade, podem me ajudar?

  3. Morangueteeh' said

    neéeh faala sobre costureira

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