OPINIÃO

Idéias e opiniões socialistas sobre Sorocaba

Parte 10 – A Acumulação primitiva

PARTE 10 A ACUMULAÇÃO PRIMITIVA 

E estamos chagando ao fim do nosso drama. Um dia encontramos o trabalhador no mercado, vendendo sua força de trabalho, como vimos negociando com o homem do dinheiro. Ele não sabia ainda com seria duro o caminho do Calvário que teria de enfrentar, nem tinha experimentado ainda o cálice amargo do qual teria de beber até chagar a última gota. O Homem do dinheiro não era ainda um capitalista, mas um modesto proprietário de uma pequena riqueza, tímido e incerto em sua nova caminhada, na qual empregava toda a sua fortuna. Vimos como acena mudou. 

O operário depois de ter gerado o capital com seu primeiro sobre-trabalho, foi oprimido por um trabalho excessivo de uma jornada extraordinariamente prolongada. O tempo de trabalho necessário para sua manutenção foi encurtado pela mais-valia relativa, enquanto o sobre-trabalho foi prolongado para nutrir sempre mais abundantemente o capital. Na cooperação simples, vimos que o operário submetido a uma disciplina militar, preso a uma corrente de concatenação de forças de trabalho, a extenuar-se mais e mais, para alimentar o sempre crescente capital. Vimos o operário mutilado, aviltado e oprimido ao máximo pela divisão do trabalho, na manufatura. Vimos sofrer as indescritíveis dores materiais e morais causadas pela introdução da máquina, na grande indústria. Expropriado da última parcela de sua virtude artesanal, vimo-lo reduzido a um mero servo da máquina, transformado, de membro de um organismo vivo, em um apêndice vulgar de um mecanismo, torturado pelo trabalho vertiginosamente intensificado pela máquina, que a cada momento ameaça arrancar um pedaço de sua carne ou tritura-lo completamente entre suas monstruosas engrenagens e,como se não bastasse, vimos sua mulher e seus queridos filhos se tornarem escravos do capital. E, no entanto, o capitalista, imensamente enriquecido, pagando-lhe um salário que ele pode diminuir a seu prazer, embora dando mostras de conservá-lo no nível anterior e até mesmo aumenta-lo. Finalmente, vimos o operário, temporariamente inutilizado pela acumulação de capital, passar do exercito ativo industrial, para a reserva, e então, desta, descer para o inferno da pobreza.  Todo o sacrifico foi consumado. Mas como foi possível acontecer tudo isso? 

De um modo muito simples! O Operário era, na verdade, proprietário de sua força de trabalho, com a qual poderia produzir tanto quanto necessitasse para si e sua família, mas a quem faltava os outros elementos indispensáveis ao trabalho, ou seja, os meios e matéria de trabalho. Desprovido, portanto, de qualquer riqueza, o operário foi obrigado, para ganhar a vida, a vender seu único bem, sua força de trabalho, ao homem do dinheiro, que tirou o seu proveito. A propriedade individual e o salário, fundamentos do sistema de produção capitalista, são a causa primeira de tanta dor. Mas isto é injusto! É criminoso! E quem deu a o homem o direito à propriedade individual?! E, além disso, como foi que o homem do dinheiro se apossou dessa riqueza, dessa acumulação primitiva, origem de tanta infâmia? 

Uma voz terrível levanta-se do templo do deus Capital e grita: “tudo é justo, porque tudo esta escrito no livro das leis eternas. De há muito se foi o tempo em que o homem vagava ainda livre e igual sobre a Terra. Poucos deles foram laboriosos, sóbrios e econômicos; todos os demais foram preguiçosos, luxuriosos e esbanjadores. A virtude fez a riqueza dos primeiros e o vício, a miséria de outros. Os poucos conseguiram o direito de gozar (eles e seus descendentes) da riqueza virtuosamente acumulada; enquanto os muitos (ele e seus descendentes) são obrigados pela sua miséria a se venderem aos ricos, foram condenados a servirem eternamente a estes e seus descendentes”. Eis como certos amigos da ordem burguesa vêem as coisas. Essas insípidas ingenuidades continuam a circular. Thiers, por exemplo, com a faixa presidencial da republica francesa, apresentou sua estupidez a seus concidadãos escrevendo um livro, no qual pretendeu ter aniquilado os ataques sacrílegos do socialismo contra a propriedade. 

Se a origem da acumulação primitiva fosse divina, a teoria que ela deriva seria tão justa quanto aquela do pecado original e da predestinação. O pai foi preguiçoso e beberrão, o filho sofrerá a miséria. Um é filho de um rico, esta predestinada a ser feliz, forte, instruído, civilizado, etc.; outro é filho de um pobre, está predestinado a ser infeliz, ignorante, bruto, imoral. Uma sociedade fundada sobre tal lei deve, certamente, acabar, com acabaram tantas outras sociedades menos bárbaras e menos hipócritas, tantas religiões e deuses, a começar pelo cristianismo, em cujas leis de encontram exemplos similares de justiça. Aqui poderíamos botar um ponto final em nosso trabalho, se fosse possível levar a sério essa tolice burguesa. Mas o nosso drama tem um final digno desse espetáculo,como logo veremos, assistindo ao último ato. 

Abramos a historia, aquela história escrita pala burguesia, e para consumo da burguesia, busquemos nela a origem da acumulação primitiva e é isso o que encontramos. Em épocas mais antigas, grupos de homens nômades vieram a se estabelecer nas localidades melhor situadas e mais favorecidas pela natureza. Ali fundaram cidades, cultivaram a terra e fizeram tudo quanto é necessário para a própria prosperidade. Mas eis que se encontram e guerreiam pela sua sobrevivência. Daí as guerras, mortes, incêndios, rapinagem e devastações. Tudo o que era vencido se tornava propriedade do vencedor, inclusive os sobreviventes que se tornavam escravos. 

Aí esta a origem da acumulação primitiva na antiguidade. Vejamos agora, na Idade Média. Nesta segunda época da historia, só encontramos invasões de povos aos paises de outros povos mais ricos e mais favorecidos pela natureza, e sempre o mesmo refrão de matanças, rapinagem, incêndios, etc. Tudo o que era dos vencidos passa para as mãos dos vencedores, com a diferença de que os sobreviventes não se tornam mais escravos, como na época anterior, mas servos, e passam juntamente com a terra a que estavam presos, para o poder do seu senhor. 

Portanto, nem mesmo na época medieval encontramos o menor traço da idílica laboriosidade, sobriedade e economia decantada por certa doutrina burguesa sobre a origem da acumulação primitiva. E é bom que se diga que na Idade Média é a época para qual nossos ilustres possuidores de riqueza podem se reportar em busca de suas origens, de seus ancestrais. Passemos, finalmente, para a época moderna. 

A revolução burguesa destruiu o feudalismo e mesmo transformou a servidão
em salário. Mas, ao mesmo tempo, retirou doa trabalhadores os poucos meios de existência, que o estado de servidão lhes assegurava.
 

Ainda que devesse trabalhar a maior parte do tempo para seu senhor, o servo se assegurava com um pedaço de terra, com os instrumentos e o tempo de cultivá-las, para ganhar sua própria vida. A burguesia destruiu tudo isso e fez do servo um trabalhador “livre”, o qual não tem outro jeito senão se deixar explorar pelo primeiro capitalista que o capturar ou morrer de fome. Bem, deixemos agora essas observações gerais e passemos para um caso particular. Peguemos a história de um povo e vejamos como é feita a expropriação da população agrícola e a formação daquela massa de operários, destinada a fornecer sua força de trabalho a indústria moderna.para variar, retornemos à historia na Inglaterra,onde todas essas doenças por nós estudadas se desenvolveram mais cedo,oferecendo-nos um bom posto para observação pratica. 

Nos fins do século 14, a servidão tinha praticamente desaparecido da Inglaterra. A imensa maioria da população se compunha agora, e mais completamente ainda no século 15, de camponeses livres que cultivavam a sua própria terra, qualquer que fosse o titulo feudal que lhe garantisse o direito de posse. Nos grandes domínios senhoriais o antigo Bailiff, um servo, foi substituído pelo arrendatário livre. Os assalariados rurais eram, em parte, camponeses, que durante o tempo em que não precisavam trabalhar em suas próprias terras, contratavam trabalhos com os grandes proprietários; e, em parte, uma classe particular e pouco numerosa de assalariados propriamente ditos.  Mas estes eram, ao mesmo tempo, lavradores independentes, pois além do salário, recebiam uma habitação e uma terra de 4 ou mais acres para lavrar. Além disso, juntos com os camponeses propriamente ditos, usufruíam das terras comuns, onde pastavam seu gado e de onde retiravam a lenha, a turfa, etc., para seu aquecimento. 

A revolução que criou os fundamentos do modo de produção capitalista teve seu inicio nos últimos anos do século 15 e nas primeiras décadas do século 16. Em todos os paises da Europa a produção feudal se caracterizou pela repartição de terras entre o maior número possível de camponeses. O poder do senhor feudal, como soberano, não dependia do tamanho de suas rendas, mas do número de seus súditos, do número de camponeses trabalhando em seus domínios. Repentinamente a libertação dos numerosos séqüitos senhoriais lançou no mercado de trabalho uma massa de proletários sem eira, nem beira. Essa massa cresceu consideravelmente por meio da usurpação dos bens comunais dos camponeses, bens estes instituídos pelas leis feudais, nas quais os grandes senhores nem pensaram. O florescimento da manufatura da lã, com o conseqüente aumento dos preços da lã, motivou diretamente essas violências na Inglaterra. Transformar as terras de lavoura em pastagens era o grito de guerra. “Mas que importa aos nossos grandes usurpadores? As casas e choupanas dos camponeses e trabalhadores foram violentamente demolidas ou abandonadas à ruína total. Quando consultamos os velhos inventários de algumas residências senhoriais, verificamos que inúmeras casas e pequenas lavouras desapareceram que a terra alimenta um número bem menor de pessoas, que muitas cidades desapareceram, embora prosperem algumas novas… Poderia falar de cidades e aldeias que se transformaram em pastos de ovelhas e onde apenas se encontram as mansões senhoriais”. 

Velhas crônicas, como esta de Harrison, exageram as queixas, mas traduzem exatamente a impressão dos contemporâneos que testemunharam essa revolução das condições de produção. 

No século 16, com a Reforma Protestante e o imenso saque aos bens da Igreja Católica, o violento processo de expropriação do povo recebeu um novo e terrível impulso. A Igreja católica era, nesta época, proprietária feudal de grande parte do solo inglês. A extinção dos conventos, etc., enxotou os habitantes de suas terras, engrossando ainda mais o proletariado. Os bens eclesiásticos foram amplamente doados aos vorazes favoritos da Corte ou vendidos a preços ridículos a especuladores, agricultores ou burgueses que expulsaram em massa os antigos moradores hereditários e fundiram as suas propriedades. O direito dos pobres à propriedade de uma parte dos dízimos da Igreja foi tacitamente confiscado. Nesta época, a rainha Elizabeth fez uma viagem pela Inglaterra. “Pauper ubique jacet”, espantou-se ela, em latim, logo após cumprir o seu itinerário. O que ela quis dizer em português, é que “o pobre está na miséria por toda a parte”, tanto assim que o seu governo foi obrigado a reconhecer oficialmente a pobreza, introduzindo o imposto de assistência aos pobres. Os autores dessa lei se envergonharam de explicar-lhe os motivos e, sem os preâmbulos de praxe, a fixaram. Sob o reinado de Carlos I, o Parlamento Inglês a declarou definitiva, e só veio a ser modificada em 1834. Ao invés de receberam indenizações a que tinham direto, deram aos pobres mais pobreza e mais castigos. Ainda no tempo de Elizabeth, alguns proprietários de terras e alguns ricos arrendatários do sul da Inglaterra se reuniram para estudar a lei sobre os pobres recentemente promulgada. Um celebre jurista da época foi encarregado de ler e de dar seu parecer sobre o anteprojeto dos proprietários. 

“Alguns dos ricos arrendatários da paróquia imaginaram um plano muito engenhoso para afastar todas as confusões que ocorrem na aplicação da lei. Eles propuseram a construção de uma cadeia na paróquia. Será negada qualquer ajuda ao pobre que nela não se deixe encarcerar. Avisar-se-á por toda a vizinhança que qualquer pessoa que deseje alugar os pobres da paróquia deve apresentar propostas lacradas, num dia determinado, fixando o menor preço pelo qual ficariam com eles. Os autores deste plano supõem existirem nos condados, pessoas que gostariam de viver sem trabalhar, mas que não podem realizar seu desejo por não disporem de recursos ou créditos suficientes para arrendar ou conseguir um barco. Estas pessoas estariam inclinadas a fazer uma proposta vantajosa á paróquia. Se os pobres morrerem aos cuidados do contratante, a culpa recairá sobre ele, uma vez que a paróquia já terá cumprido todos os seus deveres em relação a eles. Tememos que a lei que tratamos não permita medidas prudentes com a que imaginamos. Informamos-lhe, entretanto, que os demais proprietários alodiais desse condado e adjacentes se juntarão a nós para levar seus representantes na Câmara dos Comuns a propor um alei que permita o encarceramento e o trabalho compulsório dos pobres, de modo que ficará sem direito a qualquer auxilio aquele que se opuser ao encarceramento. Isso, esperamos,impedirá os miseráveis de ter necessidade de assistência”. No século 18, a lei mesma se torna instrumento de espoliação. A forma parlamentar do roubo de terras comunais é aquela das leis de cercamento das terras comunais, públicas. São na realidade, decretos com os quais os proprietários de terras se fazem eles mesmos donos dos bens comunais, decretos de expropriação do povo. Um tal Sir F. M. éden chega a apresentar a propriedade comunal como u7ma propriedade privada, embora ainda indivisa, mas ele mesmo se contradiz em sua vergonhosa argumentação jurídica, ao propor ao Parlamento uma lei geral para cercar as terras comuns. E, não satisfeito ainda de ter confessado a necessidade de um golpe de Estado para açambarcar os bens comunais, ele insiste em se contradizer, ao pedir ao legislador uma indenização para os pobres expropriados. Se não fossem expropriados, não seriam, é obvio pessoas a serem indenizadas. Sir F. M. éden, como vimos, é um poço de disparates e cobiça das coisas alheias, mas não perde a “filantropia”. 

“Em Northamptonshire e Lincolnshire, cercaram as terras comuns na mais ampla escala e a maior parte das novas propriedades daí surgidas está transformada em pastagens; por isso, muitos senhorios não têm 50 acres arados, onde existiam 1.500… ruínas de casas, celeiros, estábulos, etc., são os únicos vestígios dos antigos habitantes. Em muitos lugares centenas de casas e famílias foram reduzidas a 8 ou 10.na maior parte das regiões atingidas pelo cercamento, há 15 ou 20 anos,os proprietários de terras são hoje em numero bem menor em relação ao que  existia antes. Não é raro ver 4 ou 5 ricos criadores que recentemente usurparam e cercaram terras que se encontravam em mãos de 20 a 30 lavradores arrendatários e outros tantos pequenos proprietários e colonos. Esses lavradores e suas famílias foram enxotados dos bens que possuíam,juntamente com muitas outras famílias que empregavam e mantinham”. 

Marx transcreveu este treco de uma “Pesquisa sobre as razões contrarias ou favoráveis ao cercamento de campos abertos”, publicado em 1772, pelo Reverendo Addington. Os lordes latifundiários (landlords) anexaram não somente a terra inculta, mas também a cultivada em comum ou mediante arrendamento à comunidade, sob o pretexto de cercamento. Ouçamos o doutor Price: 

“Falo aqui do cercamento dos campos e terras abertos que já estão cultivados. Até os defensores do cercamento admitem, nesse caso, que o cercamento diminui o cultivo das terras, eleva os preços dos meios de subsistência e produz despovoamento… e mesmo o cercamento de terras incultas, com atualmente se pratica, rouba aos pobres parte de seus meios de subsistência e amplia as áreas arrendadas que já são grandes demais. Se todas as terras caírem nas mãos de alguns poucos grandes arrendatários, os pequenos lavradores serão transformados em pessoas que terão de ganhar a vida trabalhando para os outros e forçadas a irem ao mercado para comprarem tudo que precisam… haverá talvez mais trabalho, pois a coação será maior… Aumentarão as cidades e as manufaturas, pois mais gente afluirá para ela procurando emprego. Este é o sentido em que o açambarcamento das terras naturalmente atua e em que, há muitos anos, tem realmente atuado neste reino”. De fato a usurpação dos bens comunais  e a revolução agrícola que a seguiu foi tão duramente sentida pelos trabalhadores rurais que, segundo o mesmo Éden, de 1765 a 1780 o salário começou a cair abaixo do mínimo e teve de ser completado pela assistência oficial. “O salário do trabalhador rural já não é mais suficientes nem para as primeiras necessidades da vida”, disse ele. 

No século 19 desaparecia, enfim, a lembrança daquele sentimento que unia o homem do campo ao solo comunal. Que indenização, perguntaríamos, recebeu a população rural, quando entre 1810 e 1831, foi espoliada em 3.511.770 acres de terras comuns, com as quais, através do Parlamento, os landlords presentearam os landlords? E isso sem contar a extensão de terras roubadas em tempos mais próximos… Finalmente, o último grande processo de expropriação dos camponeses é a chamada limpeza das propriedades, que consiste em varrer desta os seres humanos. Todos os métodos até agora observados culminaram nesta “limpeza”. Não havendo mais camponeses para serem enxotados, a limpeza prossegue demolindo as choupanas, etc., até que os trabalhadores rurais, nesse processo de modernização, não encontrassem mais na terra em que trabalham o espaço necessário para sua própria habitação.  

Um depoimento sobre esse processo na Escócia: “Os grandes da Escócia expropriaram famílias como se fossem ervas daninhas, tratando aldeias e seus habitantes como indianos enraivecidos que atacam as feras acuadas em seus refúgios… O ser humano vale uma pele de carneiro, ou uma perna de carneiro ou menos ainda… Quando se invadiu o norte da China, O Grande Conselho dos Mongóis discutia a necessidade de exterminar seus habitantes e converter suas terras em pastagens. Muitos proprietários escoceses não vacilaram em executar essa proposta em seu próprio país, contra seus próprios conterrâneos”. 

Mas vamos dar a mão aquém merece. A iniciativa mais mongólica foi tomada pela duquesa de Sutherland. Essa senhora, de boa escola, logo que tomou as rédeas da administração, recorreu a medidas radicais e converteu em pasto todo o condado; a população, que já havia sofrido experiências análogas, mas não em tão grandes proporções, já estava tão reduzida a 15 mil habitantes. Entre 1814 e 1820, estes 15 mil individuais, que formavam 3 mil famílias foram barbaramente expulsos. Todas as suas aldeias foram destruídas e incendiadas e seus campos convertidos
em pasto. Os soldados, enviados para essa missão, bateram nos habitantes sem piedade. Uma velhinha morreu queimada entre as chamas de sua cabana, da qual se negou a sair. E assim, a nobre dama se assenhoreou de 794 mil acres de terras que pertenciam à comunidade desde tempos imemoriais.
 (Burgueses! Vós que reclamais do uso revolucionário do petróleo, limpai as orelhas! O fogo desde há muito é usado contra o proletariado! È a vossa historia que fala). 

Voltando a duquesa. Aos camponeses expulsos, ela mandou que se localizassem em 6 mil acres na orla marítima a 2 acres por família. Esses 6 mil acres eram inteiramente incultos até então, e não proporcionavam qualquer renda. À duquesa não faltou a “fidalguia” de cobrar uma renda razoável por acre, a ser pago pelos membros da comunidade, que, há séculos, derma seu sangue a serviço dos Sutherland. Ela dividiu a terra roubada em 29 grandes arrendamentos para a criação de ovelhas, cada um habitado apenas por uma família, em geral oriunda da criação dos arrendatários ingleses. Em 1825, os 15 mil aborígines gaélicos estavam substituídos por 132 mil ovelhas. Os que forram lançados na orla marítima procuravam viver da pesca. Transformaram-se em anfíbios e, na expressão de um escritor inglês, viviam uma meia vida de duas partes, uma em água e outra em terra. Mas a brava gente gaélica devia pagar ainda mais caro pela idolatria que o seu romantismo serrano dedicava aos “grandes homens” do seu clã. O cheiro de peixe chegou ao nariz dos grandes homens. Farejaram algo lucrativo atrás dele e arrendaram a orla marítima aos grandes mercadores de peixes de Londres. Os gaélicos foram expulsos pela segunda vez. 

Por fim, um aparte das pastagens se transformou em reserva de caça. O professor Leone Levi, em abril de 1866, na Sociedade de Artes, disse em sua conferencia sobre o problema: “O despovoamento do país e a transformação das lavouras em meros pastos ofereceram os meios mais cômodos para uma renda sem despesas… Tornou-se moda, depois transformar os pastos em campos de caça. As ovelhas expulsas, pelos animais de caça, do mesmo modo que os seres humanos foram enxotados para dar lugar às ovelhas…  Imensas áreas que figuravam nas estatísticas da Escócia como pastagens de excepcional fertilidades extensão não são cultivadas, nem melhoradas, estando reservadas exclusivamente para algumas pessoas terem o prazer da caça em períodos curtos e determinados do ano”. 

No final de maio de 1866, um jornal escocês dizia: “Uma das melhores pastagens de ovelha de Sutherlandshire, pela qual se ofereceu recentemente uma renda anual de centenas de libras, será transformada em reserva de caça”. Outros jornais da mesma época falaram sobre esses instintos feudais, cada vez mais crescentes na Inglaterra; alguns deles podem concluir, com dados e números, que tal fato não havia diminuído a riqueza nacional. A criação desse proletariado sem direito algum era mais rápida do que a utilização nas manufaturas nascentes. Alem disso, brutalmente arrancados das suas condições habituais de existência, não podiam enquadra-se, da noite para o dia, na disciplina exigida pela nova ordem social. Muitos se transformaram em mendigos, ladrões, vagabundos, em parte por inclinação, mas, na maioria dos casos, por força das circunstancias. Daí ter surgido em toda a Europa ocidental, nos fins do século 15 e no decurso do século 16 uma legislação sanguinária contra a vadiagem. Os ancestrais, da classe operaria atual foram punidos inicialmente por se transformarem em vagabundos e indigentes, transformação esta que lhes foi imposta. A legislação os tratava como delinqüentes voluntários como se dependesse e deles prosseguirem trabalhando nas velhas condições e que não mais existiam. 

Na Inglaterra, essa legislação começou sob o reinado de Henrique VII. Henrique VIII, em 1530: velhos e incapacitados para trabalhar obtêm o direito de apelar à caridade pública, ou seja, esmolar; os sadios que vagabundeiam são presos e chicoteados até sangrar; e, além disso, de acordo com a lei posta em vigor, esses vagabundos devem jurar que voltarão a terra natal ou á cidade onde viveram nos últimos 3 anos para, como diz a lei, “se porem a trabalhar”. 

Que ironia cruel! E essa lei é modificada para ser ainda mais dura, nesse mesmo governo: o vagabundo reincidente, além de chicoteado, terá a metade da orelha cortada, isso na primeira, porque na segunda reincidência era condenado a forca, como criminoso irrecuperável e inimigo de Estado. Eduardo VI, 1547, no primeiro ano do seu governo, baixou uma lei determinando que aquele que não trabalhar a ser escravo de quem o denunciou como vadio. (Assim, para lucrar com o trabalho de um pobre coitado, bastava denuncia-lo como vadio). Segunda a lei, o dono deve sustentar seu escravo a pão e água, bebidas fracas e resto de carne, como achar conveniente, a chicotes e aferros tem o direito de obrigá-lo a executar qualquer trabalho, por mais repugnante que seja. Se o escravo desaparecer por duas semanas, será condenado à escravidão perpetua e marcado a ferro, na testa e nas costas com a letra S (de “slave”: escravo, em inglês); se escapar pela terceira vez será enforcado como traidor. O dono pode vendê-lo, presenteá-lo, aluga-lo, como qualquer bem móvel ou gado. Se o escravo tentar qualquer coisa contra seu senhor, será também enforcado. Os juizes de paz, quando informados, devem imediatamente providenciar a busca dos acusados. Se verifica que um vagabundo está vadiando há 3 dias, será ele levado à sua terra natal, marcado com ferro em brasa no peito com a letra V e lá posto a trabalhar a ferros, na rua ou em qualquer outro serviço. Se informar falsamente o lugar de nascimento, será condenado a ser escravo vitalício desse lugar, dos seus habitantes ou da comunidade, e marcado com a letra S. Toda a pessoa tem o direito de tomar os filhos de vagabundos e mantê-los como aprendizes: os rapazes até a idade de 24 anos e as moças até20 anos. Se fugirem, tornar-se-ão, até essa idade, escravos dos mestres, que pode pô-los a ferro, acoita-los, etc., como quiser. O dono pode colocar um anel de ferro no pescoço, nos braços ou nas pernas de seu escravo, para reconhecê-lo mais facilmente e ficar mais seguro dele. Por fim, a última parte de lei prevê que certos indigentes podem ser empregados por comunidades ou pessoas que tenham a intenção de lhes dar de comer e de beber e de arranjar-lhes um trabalho. Chamados de rondsmen (rodantes), essa espécie de escravos de paróquia existiu por muito tempo, chegando até o século 19. 

Elizabeth, 1572: mendigos sem licença e com mais de 14 anos serão acoitados severamente e suas orelhas serão marcadas a ferro, se ninguém quiser tomá-los a serviço por dois anos; em caso de reincidência, se tem mais de 18 anos, serão enforcados, se ninguém quiser tomá-los a serviço por dois anos, na terceira vez serão enforcados, sem apelação, como traidores do Estado. Vagabundos foram enforcados em massa, dispostos em longas filas. Não havia ano em que 300 ou 400 vagabundos não fossem levados à forca. Num único ano, só em Somersetshire, foram enforcadas 40 pessoas, 35 ferreteadas, 37 acoitadas e postos em liberdade183 criminosos incorrigíveis. E no, entanto diz Strype nos seus anais, de onde foram recolhidos esses dados: “Este grande número de acusados não compreendem nem um quinto de todos os criminosos, graças a negligencia do juiz de paz e da estúpida compaixão do povo”. Acrescenta: “Os demais condados da Inglaterra não estão em melhor situação que Somersetshire e muitos até pelo contrario”. 

Jaime I: quem perambule e mendigue será declarado vadio e vagabundo. Os juizes de paz, em suas sessões, estão autorizados a mandar acoita-lo e encarcera-lo por 6 meses, na primeira vez, e por 2 anos, na segunda. Na prisão, receberam tantas chicotadas quantas os juizes de paz acharem adequadas… Os vagabundos incorrigíveis e perigosos serão ferreteados com um R sobre o ombro esquerdo e condenados a trabalhos forçados; se novamente, forem surpreendidos mendigando, serão enforcados sem clemência. Estes estatutos só foram abolidos em 1714. Nas páginas 41 e 42 de seu famoso livro “UTOPIA”, Tomas Morus escreveu: 

“Homens, mulheres, esposos, esposas, órfãos, viúvas, mães infelizes amamentando seus bebes, famílias inteiras, pobres de recursos, mas muitos braços, por que a lavoura exigia muitos braços. Pobres, simples desventurado as almas! Carregando seus haveres, vão deixando os campos conhecidos e amados e, adiante, não encontram onde repousar. Atirados ao acaso, sem destino, vão perdendo seus humildes objetos por uma ninharia, premidos pelas necessidades. Sem o último tostão, ao relento, o que lhes resta fazer? Roubar e então, oh, Deus!, serem enforcados com todas as formalidades jurídicas ou pedir esmola. Mas se mendigarem, eles serão presos como vadios, vagabundeando sem trabalho; eles, a quem ninguém quer dar trabalho por mais que implorem! Toda essa miséria, por quê? Porque um agiota avarento e insaciável,peste de seu torrão natal, tramou e conseguiu por meio de fraudes, violência e tormentos e roubos de milhares de alqueires, que ele cercou de estacas de valas, e expulsou os lavradores de suas próprias terras”. 

Conterrâneo destes desgraçados vagabundos do reinado de Henrique VIII, de 1509 a 1547, quando foram enforcados mais de 72 mil vadios. Tomas Morus nos contou como esses ex-lavradores eram obrigados a se tornarem ladrões. E aí esta: a acumulação primitiva e sua origem! È com essa violência e de todo esse sangue dos expropriados camponeses que nasce a classe operaria, destinada servir de pasto a toda a indústria moderna! O mais é idílio, conversa afiada… 

Assim, a fogo espada, o capital preparou o ambiente necessário para empregar um amassa de força humana destinada a nutri-lo. E, hoje, se não é a da espada, se não é o fogo, é a fome: um meio muito mais cruel e terrível. A crescente necessidade de acumulação levou a essa gloriosa, moderna conquista da burguesia, que é a fome. Um meio que é mesmo parte necessária para o funcionamento da produção capitalista como um todo; enfim, por si mesma, agindo sem grandes escândalos, sem grandes barulhos, é a fome um meio civilizado e honesto do mundo capitalista. E para quem se rebela contra a fome, há sempre mais espada e fogo. Não nos obram páginas para falarmos aqui dos heróis do capital nos países colonizados. Remetemos os nossos leitores à historia das descobertas, começando com a de Cristóvão Colombo e de toda a colonização;citemos apenas um texto de um homem “reconhecido por seu fervor cristão” W. Howitt: 

“As terríveis atrocidades praticadas pelas chamadas nações cristãs, em todas as regiões do mundo e contra todos os povos que conseguem submeter, não encontram paralelo em nenhum período da historia universal, em nenhuma raça, por mais feroz, ignorante, cruel e cínica que se tenha revelado”. Se, como disse Augier, o jornalista francês, “o dinheiro vem ao mundo com uma de suas faces manchada de sangue”,o capital – conclui Marx – vem transbordando de sangue e lama por todos os seus poros, dos pés à cabeça.

7 Respostas to “Parte 10 – A Acumulação primitiva”

  1. danielle said

    eu so queria saber o significado entao acho que deveria ser menor

  2. werika said

    eu queria algo mais específico.

  3. Helison said

    Muito bom o texto, apesar de longo, parabéns e muito obrigado!

  4. Franciele said

    Achei muito longo, so queria o significado do que era, mas parabéns

  5. PAULA said

    A expropriação do produtor rural, do camponês que fica assim privado de suas terras, constitui a base de todo processo

  6. lima said

    tem um valor de denuncia importante, mas cabe lembrar a necessidade de mudança da matriz energética e de que este modelo econômico de mão-de-obra barata precisa ser extinto.
    Cérebros a obra…o trabalhador também tem que se valorizar, não submeter nessas roubadas, ser mais empreendedor, investir na bolsa, cinvestir o dinheiro em terra em vez de ficar bebendo coca-cola e pastel frito….hoje ganhar dinheiro requer sabedoria e ponderação, além de bons hábitos e disciplina.

    Se fazer de vítima não dá!! é como se transformasse o marxismo numa religião

  7. geylson said

    a retirada do homen do su meio de subsistencia foi o que proporcionou a acumulaçao de riquesa já que este foi obrigado a vender seu unico bem estante:a força de trabalho.

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