OPINIÃO

Idéias e opiniões socialistas sobre Sorocaba

O estudo da história antiga do Oriente

3 — O estudo da história antiga do Oriente

Se bem que desde o século XVIII e do princípio do, século XIX se tivesse procurado delinear a história antiga do Oriente, essas tentativas não podiam, naturalmente, ter sucesso; a falta de fontes tornava as obras esquemáticas o superficiais. Só com a acumulação de dados arqueológi­005 e a decifração da escrita foi permitido aos investiga­dores da segunda nmtade do último século passar dos es­quclnas especulativos às tentativas de reconstituição da historia do Egipto e da Mesoputàmia, cm harmonia com os dados concretos. Os primeiros egiptólogos e assiriólogos contentavam-se dc um modo geral em publicar e computar tais textos, mas no fim do século XIX apareciam já obras de smtcse de Ad. Erman, G. Maspero e outros.

Foi, pois, nessa época que surgiu a questão da relação entre a civilização descoberta e as dos outros povos da Antiguidade: quis-se resolvê-la pela teoria do pan-babilo­TliSFflO, devida, entre outros, a F. Delitzsch e H. Winckler. O panbabilonísmo encerra, sem dúvida alguma, uma ideia certa: comparando as lendas babilónicas com os mitos bíblicos (e mais tarde, após a descoberta das leis de Hamurábi, o direito babilónico com o direito hebraico), Delitzsch e Winckler deduzem que a legislação e as lendas contidas na Biblia nasceram sob a influência da cultura babilónica, muito mais antiga do que a hebraica.


Está aí urna dedução importante que ajudou, designadamente, a critica da Bíblia, Mas os pan-babilonistas não param nessa asserção correcta (embora especial): generalizaram-na, pre­tendendo que a civilização de toda a humanidade tomou raízes na Babilónia, que seria o berço da cultura egípcia, grega, chinesa e mesmo peruana.


Os pan-babilonistas chegaram, pois, à conclusão absolu­tamente errónea, segundo a qual os principais valores da civilização teriam sido criados num certo ponto (em Ba­bilónia), para se espraiarem depois pelo mundo inteiro.

Mas não é tudo. Em fins do século XIX e princípios do XX, quando Winckler escrevia as suas obras, a cultura arcaica sumeriana ainda não estava descoberta e os histo­riadores ignoravam a génese da civilização sumero-babiló­nica. Foi por isso que a cultura babilónica, tal como a representava Winckler, tomou uma feição mística; parecia precxistente, surgida toda ela, num certo momento, já aca­bada, completa, como Ãtena surgiu, toda armada, da cabeça de Zeus. Dizendo de outro modo, o vicio essencial do panbabilonismo está em que ele nega a evolução; a coisa é caracteristamente numa teoria surgida COm o imperialismo.


Foi criticada por alguns historiadores burgueses; era primeiro lugar, por Ed. Meyer, autor da História da Anti­guidade (1884-1902) em vários volumes, que abrangia do mesmo modo o Próximo Oriente, a Grécia e Roma. Baseado no estudo de fontes diversas, o livro de Meyer encerra muitas observações interessantes, O autor colocou-se no ponto de vista da história universal para demonstrar a via de evolução única dos povos da Antiguidade. Mas a sua concepção é errónea, pois ele moderniza a história antiga, não reconhece o carácter esclavagista das sociedades e apresenta-as como feudais na primeira etapa e como capi­talistas na etapa seguinte.


Esta interpretação anti-histórica do regime social dos antigos paises oríentais é própria de muitos outros investigadores, como J. H. Breasted, que encontra na história do Egipto um periodo de desmem­bramento feudal e um absolutismo esclarecido. A teoria do feudalismo oriental da Antiguidade sobreviveu até aos nossos dias e reflecte-se em obras tais como o livro de L.Delaporte, Os Povos do Oriente Âfrditerránico (1948), e o li­vro de E. Drioton e 1. Vandier, intitulado O Egipto (1952).


Depois da Grande Revolução de Outubro, as tendências dos investigadores ocidentais diferenciam-se cada vez mais: uns, aderindo à historiografia fascista, encaram a história antiga do Oriente no espirito do racismo e fazem das tribos europeias (arianas) uma raça superior, portadora do pro­gresso; por outro lado, preconizam a monarquia despó­tica como o melhor dos regimes.

Outros tendem, espon­taneamente, a dar ao curso da história uma explicação materialista e são levados, pelo próprio estudo das fontes, a conceber as particularidades de evolução da sociedade antiga ou do seu regime politico. Assinalaremos a este pro­pósito Th. Jakobson que, na sua obra consagrada ao regime político dos primeiros Estados sumerianos, põe em dúvida a tese reaccionaria sobre a eternidade do despotismo orien­tal.


Os historiadores estrangeiros actuais interessam-se vi­vamente pela origem da civilização no Oriente: é esta questão que tratam as obras do historiador inglês G. Childe. Lada vez incide mais o interesse nos países situados para lá do «Oriente clássico,>: a índia e a China.


Mas apesar dos seus apreciáveis resultados, apesar das abundante documentação, a ciência burguesa contem­porânea não está à altura de sintetizar a história antiga do Oriente; são testemunhas disso o primeiro tomo da História Geral das Civilizações, publicada em Paris, em 1953, e compilações tais como a História do Mundo (Berna, 1932-1956) e Povos e Civilizações (Paris, 1936-1953).


A visão idealista do mundo, que consagra à religião excessiva aten­ção, a negligência de problemas da escravatura, da proprie­dade, da comunidade de vizinhança, das lutas de classes, a manutenção da teoria da estagnação, são outros tantos traços específicos da maior parte das obras modernas so­bre a história do Oriente.

Na Rússia, antes da Revolução, poucos historiadores soviéticos estudavam a história dos povos orientais da Au­1~guidade. Mas alguns deles situavam-se na primeira linha dos orientalistas dessa época, pelos conhecimentos das línguas orientais antigas e da arqueologia.

Os egiptólogos E. Turaiev e V. Golenichtchev publicaram toda uma série dc textos egípcios; o assiriólogo Xl. Nikolsli recolheu e publi­cor’ as inscrições cuneiformes do reino de Urartu, encon­tradas na Transcaucásia (no território do Império da Rús­sia), assim como um certo número de documentos econo­micos mesopotãmicos do III milénio.

Deve-se a Turaiev o primeiro curso russo de história antiga do Oriente. Con­cebído sob o método narrativo, com citação de mitos e de crónicas, essa obra encerrava, todavia, grandes extractos de textos originais e constituía, por esse lacto, uma espécie de crestomatia das fontes históricas.

Mas hoje não pode servir de manual. Em primeiro lugar, os materiais são anti­quados, pois após o seu aparecimento fizeram-se novas des­cobertas muito importantes. Em segundo lugar, à ma­neira de Meyer e de outros historiadores burgueses oci­dentais, o autor reconhece a existência do feudalismo nos antigos Estados orientais e atribui, como um idealista, o papel histórico dirigente à religião e à «sabedoria» de cer­tos monarcas. Ao mesmo tempo, despreza o papel das massas exploradas e a sua luta contra os opressorcs. Isso, todavia, não tira a Turaiev o tnerito de ter fundado a escola dc historiadores russos do Oriente.

A história soviética do Oriente, fiel ás tradições da ciência progressista de outrora, põe problemas absolutamente novos, em primeiro lugar o do carácter das relações sociais. Esta questão foi vivamente debatida cerca de 1930, mas num espírito um tanto ou quanto escolástico, pedante: a discussão incidia frequentemente, não sobre factos concre­tos, mas sobre citações de Marx, sem ter em conta a cir­cunstância de que Marx escrevia, em suma, antes de ter sido criada a ciência do Oriente antigo, e que falando de formaçao «asiática» (), ele de forma nenhuma subentendia o Egipto ou a Babilónia.

Esta interpretação escolástica de Marx conduziu à teoria errónea do «modo de produção•; asiatica»; errónea porquanto era baseada numa «via espe­cial» de evolução dos países orientais e sobre a sua pre­tensa estagnação: os partidários desta teoria afirmavam que o ((modo de produção asiático», do tempo de Hammu­rabi e de Ramsés II, se conservava até aos tempos moder­nos.

O académico V. Struvé teve o enorme mérito de acabar com a teoria do «modo de produção asiático» e de provar o carácter esclavagista das relações sociais na Mes~ potãmia. no Egipto e entre os Hititas. Todavia, não dá grande atenção aos agricultores livres, membros das corrn~ nidades.

Esta lacuna foi preenchida peios académicos N. Ni kolsli e A. Tiumenev, que demonstraram que na Suméria e no Egipto arcaico a escravatura era de natureza patriarcal e não excluía o trabalho activo dos proprietários de terras, membros das comunidades, Infelizmente, esses princípios certos foram tornados absolutos: certos historiadores pretenderam que os países orientais nunca tinham conhecido as formas clássicas de escravatura nem a propriedade privada da terra.

Neste ponto cabe um importante papel às obras de 1. Diakonov, que provou serem os regimes sociais e políticos dos países da Mesopotâmia, da Grécia e de Roma bastante mais semelhantes do que se seria levado a supor. Struvé, N. Nikolsli, Tiumenev, Diakonov consagra­ram as suas investigações sobretudo à história da Meso­potítmiti. porque neste domínio a documentação era parti­cularmente abundante.

Outros historiadores soviéticos (Avdiev, Lurié, Mathieu, Frantsev) estudavam o Egipto; a história de Urartu beneficia grandemente dos trabalhos de Melikiehvili, Piotrovski e Kapantsian. Certos capítulos da história do Oriente (sobretudo a história dos Khurritas, da Caldeia e do Novo Império egípcio) são ainda mal conhecidos. O estudo aprofundado da India e da China antigas está fio seu inicio.

Anúncios

8 Respostas to “O estudo da história antiga do Oriente”

  1. hugo sanbone said

    estou interessado em saber sobre o povo bauduino, se puderes ajudar-me nesta pesquisa, agradeco desde ja a atencao.
    muito obrigdo.

    hugo sanbone

  2. pedro henrique said

    parabesn,
    gostei muito apesar de muito leigo sobre o assunto, estou cursando o segundo semestre de direito e fazendo um trabalho aqui parei, muito bom

  3. luiza said

    o q é o q é caracteres do oriente??

  4. Cristiane said

    Estou estudando História e gostei muito do site de vocês! Tb tenho um blog que divulgo cursos, palestras, seminários…

  5. bruna said

    gostei da historia osidetal estudo isso na escola centro educacional alzenira borges
    me doubem pois gosto desta materia e digo
    parabéns a vcs que etudam e sabem sobre toda [tudo sobre a historia antiga ]

  6. Beatriz Fança Romao said

    AMEI MESMO CARACA POXA E OTIMO MESMO !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$ BEIJO

  7. Muito se especula sobre a ancestralidade da humanidade, alguns acreditam inclusive (e não seria nenhuma loucura)que não é a primeira vez em que ocupamos o habitat terrestre na tentativa de prevalecer sobre as outras espécies na superfície. Apesar de estarmos segundo nossa própria cronologia apenas á 1 milhão de anos na terra, tendemos a acreditar que outros vieram antes de nós e mais recentemente nos últimos 12 mil anos.

    É possível sim, mas muito improvável pelo seguinte raciocínio:
    Nós primatas de última geração, máquinas de guerra incomparáveis e acima de tudo com um instinto de sobrevivência invejável entre as demais espécies, temos o costume de nos ornamentar em todas as formas para inclusive mostrarmos nosso status social, entretanto não vemos arqueologicamente nada que indique que já possuímos estes artifícios em algum momento.

    Ainda hoje lapidamos pedras preciosas e as numeramos, assim como desenvolvemos jóias em ouro de todos os tipos, isso nos qualifica para moldar os elementos que vieram das estrelas que a principio são eternos, entretanto, conseguimos invariavelmente fósseis de todos os tipos de animais, com zilhões de anos enterrados nas profundezas de nosso planeta, mas em momento algum encontramos um artefato tipo um Diamante devidamente lapidado, um Rubi ou um brinco de Ouro que seja, ao qual podemos atribuir uma ancestralidade.

    A vaidade faz parte de qualquer cultura minimamente civilizada, ou então a ostentação de suas credencias, que sempre são evidenciadas com divisas nos seus uniformes e vestimentas, e nada encontramos até então, por isso, não existem Vimanas nem civilizações super poderosas da antiguidade, além do nosso tempo. O que existe na verdade é a nossa espécie muito rara na imensidão deste vasto universo.

    Poderíamos tentar não procurar cabelo em ovo e nos preocuparmos sim com o nosso futuro incerto.

    Duarte Nuno Silva

  8. Antonio Caixeta said

    O que podes dizer sobre o povo ou tribo Caixeta que imigraram para Israel no século XII Antes de Cristo? Encontrei referências vagas em um texto de março de 2010 em A Cabana do Pensador, escrito pelo editor, porém ele me respondeu que a monografia de sua pesquisa havia extraviado. É muito importante para a minha pesquisa genealógica que realizado desde julho de 1986.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: