OPINIÃO

Idéias e opiniões socialistas sobre Sorocaba

O apogeu do regime comunitário primitivo

CAPITULO III

 

 

o APOGEU DO REGIME COMUNITÁRIO PRIMITIVO

 

 

 

1 – Os principais caracteres da sociedade matriarcal

 

No apogeu da sociedade primitiva, a forma social essen­cial era a comunidade baseada no clã, quer dizer, uma colectividade unida pelos interesses económicos e espi­rituais, a mesma origem e os mesmos laços de parentesco. Sendo a exogamia a lei fundamental, o clã não podia existir sem contacto com os outros clãs da mesma tribo endógama.

A comunidade primitiva de clã, nascida sob o regime do casamento por grupos, não podia ser senão matriarcal, ou seja, baseada nos laços de parentesco pelo lado materno. Daí resulta que no casamento por grupos, onde várias mulheres têm relações matrimoniais com vários homens, a paternidade não pode ser determinada: o filho conhece a mãe, mas não sabe quem é o pai. Ora, como em virtude da exogamia os parentes pertencem necessariamente a dás diferentes, o filho faz sempre parte do clã materno e não é considerado como parente do pai.

O clã materno é o ponto de partida da comunidade de clã e, por consequência, uma etapa inevitável da evolu­ção da sociedade humana. Sob o matriarcado, a mulher éigual ao homem na vida económica e social.

Historiadores burgueses esforçam-se por desmentir esta ideia sustentada por Engels. Assim, o etnógrafo alemão H. Schurtz pretendeu demonstrar que o homem foi sem pre o chefe da família, «portador do princípio activo, criador”, que o matriarcado não era senão uma anomalia. Estas asserções reaccionárias que visam «provar» a eter­nidade do papel subalterno da mulher são contrárias aos factos. Elas foram criticadas na literatura soviética, desig­nadamente em O Matriarcado de M. Kosven. Os etnógrafos soviéticos A. Anissimov, A. Zolotarev e outros estabelece­ram sobrevivéncias do matriarcado entre diversos povos do Norte da Ásia (evenkos, ultches, etc.) que a ciência burguesa considerava como representantes clássicos das relações patriarcais.

O apogeu do regime dos clãs data do Mesolítico e continua no Neolítico. 

2 — O desenvolvimento das forças produtivas.

 

O Mesolítico e o Neolítico inferior

 

No fim do Paleolitico superior, os glaciares começam a recuar; vastas extensões da Europa e da Asia, ocupadas até aí pela estepe e a tundra, cobrem-se de espessas florestas. Os grandes rebanhos de herbívoros, que haviam servido de presa aos caçadores do Paleolítico superior, enfraque­cem-se ou emigram para o Norte. O fim do período glaciar (cerca de doze mil anos antes da nossa era) e a extensão das florestas suprimem as condições habituais para a batida: o homem limita-se a apanhar a caça miúda e os animais não gregários, como o alce. Estas condições des­favoráveis tornam impossível o modo de vida sedentário, que havia sido adoptado nos tempos da caça frutuosa do mamute: de novo se era obrigado a nomadizar em busca do alimento.

Isso necessitava, em primeiro lugar, do aperfeiçoamento dos engenhos de caça: é por isso que o arco e as flechas, surgidos desde o Paleolítico superior entre os homens de Capsa e as tribos que lhe estavam próximas, se pro­pagam por toda a parte no Mesolítico (do décimo segundo milénio ao sexto milénio antes da nossa era), afastando o arpão. O arco é uma arma mais aperfeiçoada do que  a azagaia. A flecha disparada atinge o alvo com mais segu­moça e, no caso de falhar, pode atirar-se uma outra. O arco e as flechas garantem uma boa caça às aves.

 

As estações mesolíticas encerram um grande número de micrólitos triangulares, trapezoidais ou em forma de seg­mento, com cabo de madeira ou de chifre, e que serviam nomeadamente de pontas de flechas. Muitas estações me­solíticas foram descobertas na Crimeia, no Donetz e em outros pontos da União Soviética. Nos campos das regiões arborizadas da U. R. 5. 8. (no Oka, por exemplo), as escava­ções puseram a descoberto pontas de flechas regular-mente talhadas e encabadas.

Um resultado importante para o caçador nesta etapa é a domesticação do cão. As mais antigas ossaturas de cão doméstico que se encontraram remontam ao Paleolitico superior (Afontova Gora, perto de Krasnoiarsk); encon­tram-se frequentemente ossos de cão nas estações mesolí­ticas da Crimeia. Ë o primeiro animal amansado e domes­ticado pelo homem.

 

O empobrecimento da caça forçou o homem a procurar novas fontes de alimento. A colheita volta a ter o lugar de honra: juntam-se os moluscos comestíveis, os frutos, o mel das abelhas selvagens, etc. Nas tribos do litoral e a colheita dos moluscos que fica a ser a actividade econó­iroca principal, como o demonstram as enormes pilhas de conchas descobertas em muitas localidades e denominadas <‘restos de cozinha’>.

No começo do Neolítico inferior (cerca do quinto milénio antes da nossa era) a pesca tem uma grande im­portância. Caçadores e pescadores fixam-se no litoral dos mares e (los rios, nas ilhas e nos lagos, e frequentemente constroem as suas casas sobre estacaria perto dos rios. Ë nesta época que os homens aperfeiçoam o trabalho da madeira: com machados e martelos grosseiros fazem jangadas, embarcações, habitações de toros. Monumentos do Neolítico inferior foram recolhidos na Bielorrússia, na Estónia, no curso superior do Volga e em outras par­tes da U.R.S.S.

 

À medida que os glaciares recuam, os caçadores e os pescadores povoam novas regiões: é do Mesolítico que data o povoamento da Austrália e o da América, que se efectuou pelo estreito de Behring; no seu avanço para o Norte, os homens atingem as costas do Oceano Glacial Árctico perto de Murmansk.

Os dados da etnografia permitem relembrar de um modo mais concreto a sociedade primitiva do Mesolítico e do Neolítico inferior, pois alguns dos aglomerados huma­nos estudados guardaram os seus vestígios. Por certo que percorreram um longo caminho histórico; as suas relações sociais e a sua ideologia diferem sensivelmente das formas primitivas da sociedade e da ideologia constituídas no apo­geu do matriarcado. Mas em condições naturais desfavo­ráveis, conservaram uma técnica e uma economia arcai­cas e por vezes mesmo regressaram aos instrumentos do Paleolítico.

Aos grupos étnicos mais atrasados partenciam os Ias­maio , exterminados pelos colonialistas ingleses cerca de isso, os indigenas da Austrália, os Fuegianos, os Bushman ~j>, Sul da Africa e algumas outras tribos. Ocupavam-se da caça e da colheita, alguns da pesca, e viviam em pequenos urUpOS que eram dás alterados pelas condições desfavo­ráveis Os melhor conhecidos são os Australianos.

Utilizavam na caça o boomerang, a maça de arre­messo e o «womar» com ponta endurecida ao fogo; para o lançar empregavam um engenho especial que aumenta­va a força do golpe e o alcance; também manejavam o ma­chado de pedra.

À parte a caça, praticavam a apanha dos ovos de cisnes caracóis, das rãs, das raízes; a crer num etnógrafo, conheciam perto de trezcntas espécies de plantas comes-liveis.

A divisão do trabalho, segundo a idade e o sexo, estava cm vigor: os homens caçavam, as mulheres e as crianças, armadas de paus, procuravam o alimento sobre ou dentro do solo. A pesca e a caça faziam-se geralmente em colec­liv idade.

As condições desfavoráveis do continente australiano turçavain os habitantes a mudar constantemente de resi­déncia em busca de água ou de alimento; para se abriga­rem do frio e do vento, levantavam resguardos ou cabanas ligeiras, se bem que fossem capazes de construir choupa­nas mais sólidas com ramaria e com casca de eucalipto. As suas roupas, muito primitivas, reduziam-se às vezes a um feixe de ervas ligado à cinta.

Os Australianos viviam em grupos de quarenta indivi­duos que se deslocavam num «território alimentar» deter­minado, interdito aos «estrangeiros». À frente do grupo havia anciãos.

 

3 — O Neolítico superior

O Neolítico superior é caracterizado por uma nova téc­roca do trabalho da pedra: polimento, perfmuração e serra­gem. O polimento fazia-se em lajes de argila arenosa onde se deitava areia humedecida. A perfuração efectuava-se por meio de verrumas de sílex ou tubos (caule de junco resis­tente, osso oco), torneados primeiro à mão, depois com o auxílio de uma corda de arco; sob a ponta da verruma deitava-se areia húmida. O polimento e a perfuração das rochas duras são um processo muito longo: o fabrico de um bom machado por este processo podia levar vários anos. Também a maior parte dos instrumentos da época moldava-se pelo antigo processo de corte e retoque.

A maioria das tribos do Neolítico superior continuava a viver da caça, da pesca e da apanha. No Norte da parte eu­ropeia da U. R. 5.8. a ocupação principal era sobretudo a pesca e a caça dos animais aquáticos. As estações neolíticas desta região eram geralmente vizinhas da água: os homens habitavam cabanas escavadas na terra ou casas sobre esta­caria, na margem de lagos. A caça grossa (alces, etc.) de­sempenhava um certo papel económico.

A economia baseada na caça e na pesca, na época do Neolítico superior, existia em outros pontos do território da U. R. 5. 8.: nas costas do Mar de Azov, à volta de Bai­kal, na Ásia central.

Nas margens do Amu-Daria, o investigador soviético Tolstov descobriu vestígios da cultura baseada na pesca e na caça, à qual chamou civilização de Kelteminar (desde o fim do quarto até ao principio do terceiro milénio da nossa era).

Diferentes zonas do globo terrestre foram longo tempo povoadas por tribos cuja cultura material conservava o carácter neolítico. Assim, no fim do século XVII, o viajante cossaco V. Atlassov encontrou em Kamtchatka os itelme­nos, cujo regime foi depois descrito em detalhe pelo emi­nente explorador 5. Kracheninnikov. Os Itelmenos fabrica­vam machados de pedra, ocupavam-se da pesca, da caça e da apanha. Domesticavam e criavam um grande número de cães de tiro e levavam uma existência sedentária nos cam­pos fortificados.

Os materiais da etnografia dão-nos uma ideia completa da caça, da pesca e da apanha entre as tribos primitivas. A caça exigia muito esforço, engenho e sangue-frio: ficava-se muito tempo no lugar da espera e seguia-se a pista da caça atraveS de uma distância enorme. Os caçadores imaginavam toda a espécie de armadilhas: alçapões cober­tos de terra; dispositivos que bastava aflorar para que os toros caíssem sobre o animal e o esmagassem contra a ter­ra; armadilhas e redes para as aves e os veados. Sabiam aproximar-se da caça às escondidas, disfarçados de pele de animal, e chamá-lo imitando os seus gritos. Um notável sucesso dos caçadores nórdicos é a invenção dos skis permitindo perseguir o animal através dos campos de neve.

Para a pesca, utilizavam-se barragens nos rios, armadi­lhas, anzóis (que aparecem desde o Mesolítico); apanhava-se O peixe com nassas, azagaias e arpões.

A evolução da colheita levou à formação de tribos que J. Lips denomina «colhedores». Desde o fim do Mesolí­tico, a bacia oriental do Mediterrâneo foi habitada por povos pertencentes à civilização chamada «natufianna» (sexto milénio antes da nossa era), que recolhiam as espi­gas dos cereais selvagens; essas tribos tornam-se ainda mais numerosas no Neolítico.

A etnografia dá-nos melhor a conhecer os costumes dos ~colhedores» que colhem o arroz selvagem regularmente ou recolhem os pinhões de cedro e a bolota. Na época da maturação da bolota, os índios da Califórnia iam, em aldeias inteiras, para os azinhais: os homens sacudiam a bolota com pauladas, as mulheres levavam-na em cestos, descascavam-na e secavam-na para com ela constituírem provisões que guardavam nas cabanas construídas nas árvores ou sobre estacaria. Com a bolota esmagada prepa­ravam bolas e coziam como papa para os cabazes. Os colhedores conheciam diversos modos de conservação dos géneros, designadamente a fermentação. Bem entendido, a caça permanecia uma fonte importante de alimentação.

Por outro lado, o Neolítico superior é assinalado pelo nascimento da agricultura e da criação de animais domés­ticos da fauna primitiva.

O geógrafo e etnógrafo alemão E. Hahn formulou uma teoria idealista do aparecimento da agricultura e da cria­ção de gado, visando explicar esse progresso através de ideias religiosas. Segundo ele, a criação de gado resultaria da zoolatria e teria começado com a domesticação do ani­mal venerado. Quanto à agricultura, teria nascido do culto da terra aumentadora, e o amanho derivaria do rito sa­grado da fecundação do solo.

Mas nós não temos necessidade de nos dirigirmos aos ritos para compreender como é que a «colheita selvagem» dos colhedores conseguiu gradualmente ceder o lugar àagricultura primitiva, à plantação dos vegetais; pela selec­ção artificial, a hibridação e a criação de condições propí­cias (cava da terra, irrigação, estrumação), os homens me­lhoraram pouco a pouco as espécies. No princípio, os culti­vadores trabalhavam a terra com o pau pontiagudo utilizado para a apanha; depois inventou-se a enxada. Os colhedores criaram assim a faca para ceifar e o almofariz para o grão.

Semeavam frequentemente os terrenos pantanosos, ricos em limo e inundados durante as cheias. A terra fértil, abundantemente impregnada de água, fornecia boas colhei­tas. Noutro sítio, estendiam-se para este efeito através dos bosques. Era uma necessidade penosa: os silvados e as matas de corte podiam ser cortados com o machado de pe­dra, mas era impossível deitar abaixo grandes árvores; tiravam-lhes a casca e os seus troncos mortos ficavam nos campos, por aqui e por acolá. Queimavam a madeira seca e estendiam a cinza à guisa de adubo. Ao fim de alguns anos, quando a terra se esgotava, desbravavam outro sec­tor. É aquilo a que se chama a cultura das clareiras.

As origens da criação são menos claras. Em todo o caso, supÕe um modo de vida sedentário e podia muito bem ter surgido entre os colhedores. No princípio, os animais cap­turados constituíam uma vivente reserva de alimentos:

metiam-nos num recinto onde um ou outro era domesticado casualmente. Passou muito tempo antes que os homens tivessem conseguido fazê-los reproduzirem-se em cativeiro. A domesticação não tinha, todavia, valor económico; a ver­dadeira criaçáo de gado data da época em que teve início a domesticação dos animais selvagens, a criação de raças novas, domésticas. Esta transição, devida à actividade cons­ciente do homem, foi extremamente lenta.

A agricultura primitiva, nascida da colheita, incumbia sobretudo à mulher, enquanto que a criaçào de gado, deri­vada da caça, foi essencialmente a função do homem. Assim, o desenvolvimento destes dois ramos da economia estimulou ainda a divisão do trabalho sc’mndo o sexo.

A agricultura e a criação de gado são de início embrio­nartos. A sua evolução e a sua preponderância na economia 5áo raramente observadas no Neolítico: seja como for, é o início de uma nova etapa da História.

Os partidários da teoria dos «círculos culturais», por exemplo, o etnógrafo alemão O. Menghin, pretendem que a agricultura e a criação de gado se constituíram no mesmo local, de onde teriam espraiado para outras regiões. Ora, o trabalho da terra e a domesticação dos animais começaram em pontos diferentes, tanto no Mundo Antigo como no Novo.

As primeiras sedes da agricultura e da criação situam-

-se no Nordeste da Africa, no Oeste do Irão e no vale do Indo. Os vestígios do Neolítico superior no vale do Nilo, que remontam ao quinto milénio antes da nossa era, ates­tam que a população sedentárja do Nordeste da África cria­x’a carneiros, vacas e porcos e semeava a espe]ta e a cevada. Mas a caça e a pesca continuaram durante muito tempo a desempenhar um papel importante.

No território da U. R. S. S., os mais antigos vestfgios da agricultura e da criação de gado foram descobertos na Turqueménia nos estratos da colina de Anau (quarto milé­nio antes da nossa era), onde foram encontrados Ossos de Vaca de porco e de carneiro, bem como restos de cevada e dc trigo. Nos finais do quarto e do terceiro milénios, a agri­cultura surgiu na Transcaucásia e no Ural: numerosas pica­retas de osso e de chifre na estação neolítica da «Flecha» (perto dc Nijni-Taguil, no Ural) testemunham que a agri­cultura existia aí nos recuados tempos da Pré-história.

No terceiro milénio antes da nossa era, certas tribos da Europa cultivavam o trigo, a cevada, o milho-painço, as lentilhas, a ervilha a cenoura e sem dúvida as macieiras.

Os Povos do Próximo Oriente conheciam então muitas Plantas hortícolas e frutícolas: a tamareira, a oliveira, a vinha, a figueira, a abóbora, a cebola, o alho, a alface, o sésamo.

Os primeiros animais domésticos espalhados na zona das florestas são o porco e a vaca; a criação do carneiro desenvolve-se mais tarde.

Povos atrasados da América e da Oceânia praticaram durante muito tempo a cultura primitiva da terra, sem poderem dedicar-se à criação de gado, devido à falta de animais susceptiveis de seerm domesticados e em virtude de outros factores naturais desfavoráveis. Assim os Papuas da Nova-Guiné, estudados pelo eminente investigador Mik­lukho-Maklai, eram mais evoluidos que os Itelmenos, por­que cultivavam já hortas. Embriões de agricultura existiam entre as numerosas tribos de caçadores do Brasil; quanto a certos índios da América do Norte, já conheciam o fei­jão, o milho, a abóbora, o tabaco.

 

4 Instrumentos e armas no apogeu do regime dos clãs

Os dados arqueológicos e etnográficos elucidam-nos, até um certo ponto, sobre a sociedade humana no apogeu do regime dos clãs. O homem nesta época é nitidamente supe­rior aos seus antepassados fósseis, que tinham como único instrumento pontas toscamente talhadas à mão. A expe­riéncia de numerosas gerações conduziu à criação de ins­trumentos variados e complexos.

Instrumentos e armas eram feitos de diversas rochas, sobretudo de sílex, assim como de madeira, de chifre e de osso, de conchas, de fibras, de pele, etc. Na caça utili­zavam toda a espécie de armadilhas. A azagaia e o dardo tinham pontas de pedra ou de osso; para aumentar a força do golpe e o seu alcance utilizavam uma tabuinha de lanço semelhante à dos Australianos. Urna invenção interessante é o «hoomerang~’, usado pelos Australianos e certos povos da índia e da América do Norte: é uma peça de madeira recurvada que voa, girando, e atinge a vítima

de chofre; há algumas que regressam ao pé do caçador, se o golpe falhar.

O arco e as flechas são a arma mais corrente deste período. Havia arcos simples de madeira de uma só peça, c outros compostos de folhas de madeira, de chifre e de OSSO. As suas dimensões, muito variáveis, atingiam por vezes a altura de um homem. A corda fabricava-se com terdões ou fibras vegetais; as flechas eram geralmente de madeira ou dc junco, com pontas de pedra ou de osso, e com plumas que lhe regulavam o voo. As maneiras de atirar eram muito diversas.

Para atirar às aves, por exem­pio, alguns caçadores deitavam-se no chão, com o arco apertado entre as pernas, segurando a corda com ambas a~ maos. Muitas tribos envenenavam as flechas, e os índios norte-americanos serviam-se de flechas incendiárias.

Ainda não existia grande diferença entre as armas de caça e as de combate; os «tomahawks» dos peles-verme lhas eram frequentemen~~ muito utilizados como machados domésticos. Um papel especificamente militar cabia, toda­via, à arma defensiva: o escudo, de formas e dimensões mUito variaveis, de madeira, de ramos entrelaçados, de pele, de folhas de palmeira, de juncos, etc.

Os instrumentos agrícolas eram não menos diversos. Re­volvia-se a terra com picaretas que se reduziam às vezes a um simples pau com galhos, e eram feitas, em outros casos de uma lâmina de pedra ou de haste de veado com braço LIC madeira Para ceifar, pegavam em facas ou foici­nhas de madeira ou argila, nas quais ajustavam uma placa cortante. Batiam o trigo com paris e para moer o grão Crnprega~~0~ almofarizes grandes lajes cujos rebordos eram por vezes alteados, e ainda pilões ovais.

Os homens do Neolítico fabricavam instrumentos espe­cializados, quase sempre polidos: bui-is, machados, facas, enxós etc. O machado polido adaptava-se a um braço côn­cavo que fechava de qualquer modo a pedra; depois fixa-‘a-se com correias e pez. O machado perfurado metia-se num braço direito. O aparecimento destes instrumentos que pcrmiti~tr~ aos homens deitar abaixo grandes árvores favoreceu a evolução da construção e afinou a arte de tra­balho em madeira.

Para o fabrico dos tecidos foi inventado um fuso cuja extremidade inferior era munida de um bilro de pedra ou de argila; depois surgiu o ofício de tecelão, como o ates­tam os achados neolíticos do vale do Nilo; as vestimentas eram cosidas com agulhas de osso.

Nas migrações as pessoas levavam consigo as bagagens; o meio de transporte mais simples era o trenó atrelado com cães, sobre o qual se colocava a tenda e os utensílios domésticos rudimentares. Desde o quarto milénio antes da nossa era utilizavam-se os burros como bestas de carga. Para navegar nos rios e lagos havia desde o Mesolítico, embarcações feitas de um tronco de árvore escavado ou pranchas com casca.

 

5 — A habitação, os utensílios, o vestuário

A cabana escavada na terra, que esta’ja em uso no Pa­leolítico, permanece no Neolítico como a forma principal de residência da zona temperada.

Além disso, há a tenda com varas compridas recobertas de peles, de casca de bétula e, nos trópicos, de folhas de palmeira. Vê-se surgir depois a casa disposta rectangular-mente ou em oval, com muros e tecto. Os habitantes da zona temperada da Europa construíam geralmente as suas casas com toros; por vezes as paredes eram sebes reves­tidas de uma mistura de argila e estrume. Cobriam-se as casas com folhas, juncos, cascas de bétula e torrões de ter­ra; a parte do tecto era inclinada para escoar as águas da chuva.

Na península dos Balcãs construía-se com taipa; na ilha de Creta com blocos calcários; aqui, o tecto era chato, destinado a receber a água da chuva e não a escoá-la. So­bre o solo de terra batida estendiam-se cascas de bétula ou esteiras.

Elevavam-se as casas sobre estacaria, geralmente nas regiões pantanosas, nos lagos, mas também nos lugares secos, para se abrigarem dos animais ferozes e dos iinimigos. Sobre a estacaria fixava-se uma plataforma em ma­deira onde se construía a cabana. Escavações realizadas na Suíça puseram à luz do dia restos destas palafitas, cujos habitantes fabricavam utensílios neolíticos, viviam da agri­cultura e da pastoricia

As primeiras casas não tinham portas nem janelas: uma simples esteira fechava a entrada. Mas desde o Neolí­üco as l~ibos do Próximo Oriente tiveram portas de ma­deira que giravam em ninhos de pedra. Se a lareira se encontrava no interior, abria-se por cima um buraco para o escape do fumo. A iluminação era de candeia (uma me­cha nadando num recipiente cheio de gordura) e com apa­ras de madeira.

As pessoas dormiam sobre a terra, em cima de uma ‘-orna dc ramos de peles ou de esteiras ou em macas. À ouisa dc alrnotada colocavam sob a cabeça um suporte de madeira e por vezes um pequeno banco delicadamente esculpido. As regiões do Norte só conheceram o leito no Neolítico. As pessoas sentavam-se sobre esteiras ou peles; os bancos, por outro lado, são de origem bastante antiga.

A louça era de couro, madeira, ramos entrelaçados ou de casca. O caule côncavo do bambu e a cabaça serviam tam­bém de recipientes. Mas só a invenção da cerâmica (olaria) permite cozer sistematicamente a comida, o que enriquece em grande medida a escolha dos alimentos e os torna mais assimiláveis. Um dos processos mais arcaicos na olaria consistia em moldar, em argila misturada com areia, re­bordos que se sobrepunham por anéis ou em espiral. Os vasos assim obtidos eram cozidos ao fogo. Tinham fundo bicudo ou redondo.

Esta arte era exercida pelas mulheres; entre certos povos era mesmo interdita aos homens a aproximação das choupanas onde elas modelavam os recipientes em silêncio absoluto. A olaria contribuiu, pois, para a divisão do tra­balho segundo os sexos.

O  aparecimento da louça dc argila demonstra um modo de vida mais sedentário, pois seria impossível transportar com frequência esses potes pesados e frágeis.

O  vestuário servia para abrigar o corpo do frio e da chuva. As suas formas mais antigas são a cinta, a capa, o avental e a saia; mas não existiam em todos os povos. Assim, o x’estuário dos Fuegianos reduzia-se a um avental e um quadrado de couro de focà lançado sobre os ombros. Mais tarde — e apenas em certos sítios — apa­receram as mangas e os calções, cujos canos se confeccio­navam separadamente e se fixavam por atilhos especiais. A blusa e calções de uma só peça são de origem ainda mais recente. A matéria do vestuário, muito variada, dependia das condições naturais: utilizavam peles, folhas de árvore, cascas, juncos; e após a invenção da fiação e tecelagem, houve vestidos de lã e tecidos de fibras vegetais: ortigas, linho, cânhamo, algodão.

O calçado cujo uso, posterior ao do vestuário, se limi­tava a certas regiões, era de couro, de pele, e algumas vezes de madeira e tomento.

 

 

6 A organização da produção

 

No apogeu do regime dos clãs, a forma essencial de produção é a cooperação simples, o trabalho em comum dos membros do clã. As batidas, a pesca ao anzol, a apa­nha organizada, todos estes trabalhos referidos não podiam ser realizados senão em colectividade.

O desenvolvimento da agricultura primitiva, longe de stiprimir o carácter colectivo do trabalho, ainda o conso­lida: as dificuldades que passavam para cultivar o solo com instrumentos rudimentares (machado de pedra para arrotear, picareta de madeira ou simples pau para surri­bar a terra) impunham a união dos esforços.

O trabalho colectivo da terra existia entre todos os povos que praticavam a agricultura. Os papuas da Nova-

-Guiné começavam por cavar a terra com paus pontiagu­dos; atrás da fileira de homens encarregados desta tarefa, vinham as mulheres armadas com pás primitivas; depois as crianças que esmagavam os torrões com as mãos e tira­vam os seixos. Todo o trabalho ulterior (plantio, sacha, vedação, protecção contra os parasitas, as aves e os roe­dores, colheita) incumbia geralmente às mulheres e efec­tuava-se por elas em comum.

A produção colectiva condicionava a propriedade colec­tiva. Os homens consideravam o seu terreno de caça como propriedade do clã e proibiam rigorosamente o seu acesso aos intrusos. E ao clã (ou a uma parte do clã) que perten­cem as habitações, e por vezes mesmo certos instrumentos (grandes embarcações, anzóis de pesca). No início o gado devia ser, também ele, propriedade colectiva. Enfim, os ma­teriais etnográfícos demonstram que certos aglomerados populacionais (por exemplo os nivkhes e os evenkos) con­sideravam o fogo como propriedade do clã e não permi­tiam que fosse cedido senão à parentela.

Mas a maior parte dos instrumentos era propriedade pessoal o arco e as flechas, as picaretas, os machados, etc., pertenciam àquele que os fizera e os utilizava. O mes­mo se pode dizer dos adereços. E foi desde cedo o caso do gado. Todavia, a propriedade pessoal dos instrumentos de trabalho, do gado e dos adereços estava sujeita a pwprie­dade colectiva do meio de produção essencial: a leria. O~ objectos pessoais nem sempre podiam ser lix 1c1nt~1ilc lran~ mitidos: a sua herança permanecia geralmente no seio d( clã; o que matava o seu porco devia oferecer carne aos pa rentes; ninguém podia acumular, pois o consenso detcrmi nava que se distribuisse o supérfluo pelos membros do cl~

A vida caseira tinha também um carácter comunitário O alojamento fazia-se em casas que abrigavam mesm centenas de pessoas. A forma inicial da grande residênci é representada pelas moradas da civilização de Kelteiuina do curso inferior do Amu-Daria, reconstituídas por 5. ‘Iol tov; era uma vasta habitação em forma circular, no mei da qual ardia permanentemente um lume. As famílias ac. saladas aí faziam a sua cozinha, em pequenos lares di postos a toda a volta, e aí dormiam.

Na mesma época, as tribos neolíticas da Europa Centra que trabalhavam a terra à picareta nas regiões arborizad~ do Danúbio e do Reno, construíam grandes casas (até metros de comprimento) com paredes de argila, elcvad:

sobre barrotes. Gradualmente, no curso do terceiro miléft antes da nossa era, as dimensões das moradas reduzem-s e no fim do Neolítico o tipo mais corrente é a pequer cabana de ramaria.

A etnografia inicia-nos na vida caseira e nos costumes d habitantes das «casas compridas». Conta Morgan que Iroqueses viviam em grupos numerosos nas casas cox pridas de toros, previstas para cinco até vinte famílias ap rentadas. Cada família tinha o seu compartimento, qt dava para um corredor central onde se encontravam lareiras. O grande grupo tinha a sua vida caseira em c mum: todos os frutos da caça, da pesca e da agricultw eram postos à disposição da colectividade. Mas nos Ir queses observava-se um início de individualização da px~ dução, permitindo a caça ao arco que o homem procurasl o alimento isoladamente. A cultura das hortas era parcia mente individual, mas também existia a repartição de lofi entre as famílias. A tribo também não deixava de guardl os seus direitos sobre a terra; todo o jovem índio que se casasse recebia da tribo um lote inalienável, retirado no ter­ritório comum.

Assim, no apogeu do regime dos clãs, é POis a produção e a vida caseira colectivas que predominam. mas à medida que se desenvolvem as forças produtivas, a produção individualiza-se, o que conduz a um certo isolamento das familias aparentadas. As pequenas cabanas dos agricultores do Danúbio, no Neolítico Superior, são disso uma prova. Todavia, a propriedade dos meios essenciais da produção permanece nas mãos do clã.

A divisão do trabalho segundo os sexos, cuja origem remonta ao Paleolítico, é cada vez mais consolidada pelo desenvolvimento das novas formas de economia. A caça e a criaçao de gado que dela deriva são função do homem, en­quanto que a mulher se dedica à apanha, à cultura do solo e se ocupa dos trabalhos caseiros, neles se incluindo a olaria. Daí resultam associações masculinas e femininas distintas, que têm os seus locais e as suas festas próprias.

 

 

7 O clã materno

A unidade fundamental da sociedade era o clã mater­no. A agricultura e a cerâmica deram mais importância ao papel económico da mulher, e no apogeu do regime dos dás a mulher ocupa mesmo, às vezes, uma Posição superior à do homem.

Os costumes dos Iroqueses, como mostrou Morgan, apresentavam traços rlitidamente matriarcais; após o casa­mento, o marido passava para o clã da mulher e instalava-se na Sua «Casa comprida» Se era preguiçoso demais em trazer a sua parte de alimentos, podia ser expulso, mesmo que fosse pai de família numerosa, a menos que uma tia Ou uma avó influente intercedesse em seu favor. Os filhos dos lroqueses pertenciam ao clã da mãe.

No apogeu do regime dos clãs, a família aparentada (OflsOlidarase sem chegar, todavia, a ser a célula dirigente da sociedade Como, em virtude da Cxogamia os esposos Pertenciam a dás diferentes, após a desagregação da fami­lia os seus bens eram repartidos entre as duas colectivi­dades. A família aparentada não tinha, geralmente, territó­rio alimentar: os bens permaneciam separados; o marido era frequentemente ligado por interesses económicos aos~ membros do seu clã e participava na sua actividade produ. tiva. A família dependia, pois, de uma união conjugal ins­tável, momentânea; o casamento contratava-se sem forma. lidades particulares e quebrava-se facilmente, a pedido d~ um dos esposos. Sobrevivências do casamento por grupo mantinham-Se sob a forma de adultério legitimado, o levirato (obrigação de a viúva casar com o irmão do def’nto) ou o sororato (direito concedido ao homem de casa. mi uma irmã da sua mulher, após esta ter falecido).

Os membros do clã habitavam em conjunto ou forma~ vam vários lares, chamados (grandes famílias maternais). Tinham direitos determinados. Todos, homens e mulheres, elegiam e, em caso de necessidade, destituíam o seu chefe e o comandante militar nomeado para o tempo das hostilidades. Os membros do clã deviam ajudar-se e defender-se mutuamente. O clã tinha as suas festas religiosas e as suas necrópoles.

Uma organização social mais vasta era a fratria (confra ria), composta por várias tribos (originariamente em númer par). Era um clã aumentado e depois fraccionado. A soli daricdade dos seus membros manifestava-se através de un conselho geral e de festas comuns; logo que houvessE conflito armado, a fratria constituía unidade de combate O elo seguinte da sociedade primitiva era a tribo, que pos suia um território separado das regiões vizinhas por um~ zona neutra, de ordinário arborizada, a sua própria língua e um culto à parte. O conselho da tribo, abrangendo os che fes de dás e os chefes militares, declarava a gueira e con cluía a paz, mas as decisões deviam ser sempre tomada~ por unanimidade. O chefe da tribo, que era normalmentE um chefe de clã, não tinha grandes poderes.

O prestigio do chefe dependia das suas qualidades pe~ soais: habilidade na caça, valentia no combate, sensates,  hospitalidade, etc. Os seus poderes não eram hereditários baseavam-se na aprovação pública e não na força materiaL

O chefe podia sempre ser destituído. Não mais feliz que os outros, devia partilhar com os do seu clã os despojos da caça e os produtos da agricultura, o que contribuía para reforçar a sua autoridade.

Dedicava-se um grande respeito às mulheres, que assu­miam a direcção do lar e eram consideradas as verda­deiras organizadoras da actividade produtiva da grande família materna; os próprios chefes deviam contar com elas.

A organização do clã é inteiramente democrática: todos São iguais e livres. Os homens primitivos não estabele­ciam distinção entre os deveres e os direitos: participar na produção, nas reuniões, nas campanhas militares é tanto um direito como um dever. E ainda que essa actividade seja benévola, a recusa em tomar parte nela expõe o ho­mem a um desdém que o conduz praticamente ao desterro da sociedade. Mas seria mau idealizar esta época. A insu­ficiência das forças produtivas e a opressão da personali­dade na rude luta com a natureza traduziam-se por cos­tumes cruéis, particularmente a condenação à morte nos recém-nascidos deficientes.

O clã e a tribo são instituições fechadas. Enquanto que os litígios internos são regulados pela assembleia dos mem­bros do clã, as ofensas feitas aos representantes de um outro clã provocam a vingança: todo o clã toma a defesa do ofendido. Ainda mais fechada é a tribo: tudo o que lhe é exterior está fora da lei.

Falando da guerra na sociedade primitiva, os autores burgueses reaccionários comprazem-se em sublinhar a «fe­rocidade» através de histórias de escalpos, de caçadores de cabeças, de antropofagia, de torturas, etc. Ora esses factos. bastante raros na origem, multiplicam-se somente sob a influência dos colonialistas europeus, interessados em exci­tar as tribos umas contra as outras. Não é sem razão que Miklukho~Maklai assinalava o temperamento pacífico dos Papuas.

Se os investigadores burgueses exageram o papel das guerras na sociedade primitiva, isso é para demonstrar que elas existiram sempre e para justificar a ideologia dos in­ cendiários. Na realidade, a guerra não é um fenómeno nal ral. Os Australianos, por exemplo, quase nunca se batiam os seus combates desenrolavam-se sob os olhos dos anciã( que gritavam «bastal» quando as coisas iam longe dema Assim, essas «guerras» eram raramente sangrentas. Ë o fim da época em que o regime dos dás estava no seu ap geu, que os conflitos armados se tornaram mais frequent e mais cruéis. À medida que se afirma o modo de vida dentária e que as provisões se acumulam, a tribo confina ao seu território mostra-se mais hostil para com os vi nhos. As guerras são acompanhadas muito frequentemen de desvastações e de massacres. Não é por acaso que aldeias dos clãs são desde então cercadas por muralh de estacas ou construídas em localidades pouco acessíve:

Por vezes, os vencidos aderem a um clã da tribo vit riosa. Durante a cerimónia, um dos cativos toca ao de le’ com os seus lábios o seio de uma mulher idosa, para si! bolizar o parentesco pela linha materna.

A estreiteza do regime dos dás aparece, enfim, no fac de as tradições asfixiarem os interesses do indivíduo, enti varem a sua liberdade, o seu espírito de iniciativa. A ev lução ulterior devia passar pela desagregação do regin comunitário primitivo.

 

8— A cultura espiritual no apogeu do regime dos clãs

O  crescimento das forças produtivas assegurava o d senvolvimento da vida espiritual da humanidade. O ape feiçoamento dos engenhos de caça e de pesca, a domesl cação do gado e a cultura das plantas, a afinação da pe furação, da serragem e do polimento da pedra, a constr ção das casas, a cerâmica, a tecelagem — tudo isso aume~ tava, pouco a pouco, a experiência técnica do homem e ~ riquecia o seu espírito.

O  progresso do pensamento humano manifesta-se ~ bretudo pela formação das ideias abstractas, para a que contribui grandemente a iniciação à arte do cálculo. Nesta etapas da história, os homens raramente sabiam contar alëm de dois ou três. Uma excelente memória fa­zia-lhes as vezes de cálculo até um certo ponto: lembravam-se dc cada carneiro, cada árvore de fruto; mas ainda não tinham a noção abstracta do número de árvores ou de car­neiros O cálculo não se desenvolve Senao num período bastante avançado da evolução do pensamento

A experiência adquirida em matéria de produção influi directamtnte sobre a língua. As obras dos fundadores do marxismo-leninismo revelam a essência e a particularidade da lingua enquanto fenómeno social e abrem à luz o complexo problema do seu desenvolvimento.

E precisamente do facto de estar estreitamente ligada à actividade produtiva do homem que a língua sofre a influencia directa das transformações operadas na produ­ção. No princípio, a língua distingue-se pelo seu carácter concreto, em razão do débil desenvolvimento do pensa­mento abstracto. Os etnógrafos assinalam que as línguas da maior parte dos povos atrasados contemporâneos são pobres cm noções abstractas: faltam-lhes frequenteme~t~ palavras como «ave», «peixe», «animal», enquanto que são abundantes em term(s variados que designam as espécies (assim como os especímenes) de árvores, de animais, de aves, etc. Este carácter descritivo surge também na sua es­trutura gramatical, por exemplo, na existência do dual e do trial, na multiplicidade dos géneros (classes) de objectos, etc. O aumento dos conhecimentos do trabalho enriquece O vocabulário e aperfeiçoa a estrutura gramatical. A evolu­ção do pensamento engendra, cada vez mais, termos abs­tractos.

A experiência recolhida pelas gerações permite ao ho­mem primitivo saber orientar-se no meio ambiente: o caça­dor reconhece, fundado nas impressões, a que animal diz respeito, se é macho ou fêmea, se é novo e imprudente ou velho e manhoso Informado de todos os hábitos da caça grossa, o caçador coloca, com uma consumada arte, as armadilhas nos lugares apropriados, O rasto dos animais selvag~05 anundjamihe a chegada da Primavera. Inúmeras associações e relações lógicas entre os fenómenos, conservados pela memória, constituem a experiência da human dade primitiva.

É assim que se desenvolvem os conhecimentos posit vos do homem, as suas ideias sobre si mesmo e sobre mundo que o cerca. As longas marchas através das estepe e das florestas obrigam-no a orientar-se pelas estrelas e, p~ conseguinte, a reter a «carta das estrelas)), a disposição d~t astros no céu. Aprende também rapidamente a traçar, sobre a areia ou sobre cascas, cartas geográficas rudimea tares.

A agricultura habitua o homem às estações que é pr~ ciso tomar em consideração para efectuar a tempo os tri balhos, as sementeiras, por exemplo. A observação das est~ ções do ano conduz à criação de um calendário primitivo onde os meses (geralmente lunares) não são sempre iguais. 

Para tratar as doenças recorrem às ervas medicinais, às massagens, etc. Mas esta medicina elementar, puramente empírica, não é ainda fundada no conhecimento do corpo humano.

ReunindO assim a experiência de uma geração à outra, ~s homens só muito lentamente a chegam a sintetizar: sa­bem preparar venenos violentos sem se manifestar a sua acção.

E sob o regime dos clãs que se esboça a primeira forma de escrita: a pictografia (escrita através do desenho). Dese­nhando um cavalo cheio de manchas, os homens primitivos representavam a epizootia do carvão. Havia outros modos de inscrição: placazinhas, cordões com nós. Neste caso, cada sinal tinha o seu sentido convencional, O apareci­mento das primeiras formas de escrita atesta um desen­volvimento considerável do pensamento abstracto.

A experiência em matéria de produção e os embriões de conhecimentos científicos do clã ou da tribo transmitem-se à nova geração por meio da educação. Sob o regime dos clãs, a própria educação tem um carácter público: rapazes e raparigas são colocados sob a vigilância de todos os mais velhos. Os filhos cedo se tornam independentes e desde cedo participam na actividade produtiva do clã, designa­damentc na caça, onde dão prova de uma paciência e de uma habilidade extraordinárias. Os pequenos congoleses podem estar horas à espera, sem mexer, com grãos na mão aberta: mas logo que aí pousa uma ave, apanham-na com um movimento rápido.

Os diversos conhecimentos de trabalho, o treino físico e a higiene, os embriões de conhecimentos científicos e as tradições do clã — tais são os elementos constituí os da educação na sociedade primitiva. Mal chega a adolescência, os rapazes, e por vezes as raparigas, são submetidos a uma série de provas chamadas de «iniciação)). Realiza-se na época das testas e desenxolvese em atmosfera solene. Ë uma sucessão de ritos durante os quais os rapazes devem mostrar flao apenas que conhecem as tradições do clã e da tribo, Ina ainda Que suportam bem a dor: flagclamnos, partem-lhes os dentes, fazem-lhes incisões profundas, e por vezes obrigam-nos a deitarem-se sobre uma pira coberta de ra­mos frescos, onde permanecem apesar do calor e do cheiro acre, até que os antigos façam parar o suplício. Somente aquele que passou na iniciação fica a ser membro cem por cento do clã, enquanto que os fracos são votados ao desprezo geral.

Na sociedade primitiva, aparecem os rudimentos das artes plásticas. No fundo de sombrias cavernas, ao clarão pálido das brasas, os artistas desenharam pinturas polícro­mas: cavalos furiosos, bisontes a galope ou tranquilamente deitados, grandes cenas de caça. Na mesma época, escul­pem-se em marfim ou em osso figurinhas de veados lan­çados a toda a velocidade ou seres humanos (sobretudo mulheres) bizarramente penteadas e munidas de uma cinta que lhes pende atrás como uma cauda. A partir do Meso­lítico, as artes perdem frequentemente o seu carácter rea­lista: os desenhos são uma confusão de sinais convencio­nais, que por vezes nada se assemelham ao objecto repre­sentado.

O  homem primitivo tem um fraco pela indumentária: tatua-se, traz braceletes e colares e vai até ao ponto de limar os dentes, colorir a pele e os cabelos. Decora com amor a sua habitação, os seus utensílios domésticos, o seu trem de cozinha. A cerâmica é geralmente enfeixada ou em atravessado ou com covinhas; os recipientes e os utensí­lios de madeira são esculpidos e pintados. A tatuagem e a escultura em madeira têm frequentemente um sentido sim­bólico: os círculos e os arabescos resumem aí lendas fami­liares ou epopeias.

A música primitiva não é cognoscível, evidentemente, senão através dos dados etnográficos. O instrumento de música mais antigo era sem dúvida o arco: uma das suas extremidades era introduzida na boca que servia de caixa de ressonância, enquanto que o som se obtinha com a corda, ferindo-a com um pauzinho. Depois adaptou-se ao arco uma caixa de ressonância artificial, que conduziu àcriação dos instrumentos de corda. A música acompanhava trcquentemente danças prolongadas, que por vezes se trans­formavam em pantomimas.

 

A tradição oral (folclore) distinguia-se por uma grande diversidade. Todas as tribos têm as suas lendas, que evO­cam a origem do mundo e dos primeiros homens, o passa­do da tribo, a luta do homem com a natureza e as suas vitórias sobre os monstros e os gigantes. São geralmente cheias de optimismo e de crença do triunfo d9 homem sobre as forças hostis.

 

9 A religião primitiva

 

À parte as ideias certas acerca do mundo, o homem tinha concepções erradas, fantasistas, também chamadas erenças religiosas. Para explicar a origem da religião, E. B. Taylor, estudioso inglês do século XIX, enunciou uma teoria idealista segundo a qual as crenças religiosas provi-riam das meditações do homem primitivo. À força de reflec­tir nos sonhos e na morte, o homem teria concluído que tinha um duplo, uma alma capaz de deixar o corpo, e teria ouvido a seguir esta ideia na natureza, dando almas ou espí­ritos aos animais, às plantas e às pedras, Na realidade, a religião resulta, não de ociosas meditações, mas da activi­dade produtiva do homem: em virtude de um desenvolvi­mento insuficiente da experiência e do pensamento huma­nos, concebiam-se às vezes ideias falsas sobre a sua atitude para com a natureza.

Sob o regime dos clãs, o homem julgava-se capaz de exercer um poder sobrenatural sobre a natureza, os ani­mais e as plantas, por meio de práticas mágicas, nascidas ao mesmo tempo que as crenças religiosas. Pantomimas imitando a caça conservaram-se até ao fim do século XIX entre grande número de aglomerados humanos, neles se incluindo os do Grande-Norte russo. Os Itelmenos, por exemplo, preparavam antes da caça à baleia uma efígie do animal, feita de ervas, que se encarrapitava nas costas de uma mulher. Esta rastejava à roda da lareira, atacada pelas crianças que tiravam a efígie aos bocados. Isso devia garantir o sucesso do empreendimento. Os pelcs-verme­lhas, antes da caça ao bisonte, organizavam danças que duravam vários dias a fio, as quais deviam agir sobre os animais, Convencendo-os a deixarem-se matar. As cenas de caça desenhadas nas cavernas do Paleolitico superior ti­nham também uma significação mágica.

Nos mais antigos ritos figuravam todas as espécies de animais selvagens. Gradualmente, à medida que se desen­volve este culto, distingue-se entre a massa dos animais (ou das plantas, para aqueles que se ocupam da apanha) uma certa espécie que se pretende como que ligada a um determinado clã. É o totem, do qual o clã se julga provir. Assim, o totemismo, tal como o culto do animal cuja caça se pratica, liga-se a um processo de produção mal enten­dido.

Conhecemos as ideias dos Australianos, que julgam que cada grupo económico está aparentado a tal ou tal animal ou planta (ema, canguru, etc.), O rito essencial deste culto consiste em que um dos anciãos acaricia o ventre dos ho­mens com uma pedra especial, repetindo: «Que o teu ali­mento seja abundante!» Trata-se, pois, no início, de assegu­rar pela magia o sucesso da actividade produtiva.

Mas as crenças totémicas encobrem uma contradição que condicionou o seu desenvolvimento posterior: o totem é ao mesmo tempo a presa principál do caçador e o ante­passado colectivo do clã. Portanto, a caça ao totem é uma caça a um parente, e o assassínio do animal venerado deve comprometer o caçador. Esta dualidade aparece so­bretudo do culto do urso, praticado pelos Evenkos e muitos outros povos caçadores da Sibéria, que fazem penitência e pedem perdão ao animal por o terem morto.

Um outro elemento capital do culto sob o regime dos ~lãs é a ideia da <(adivinha,>, da mulher perita na arte da bruxaria. Isso refere-se mesmo à essência do clã materno, onde as mulheres encarnam a união da colectividade, en quanto que os homens pertencem a um outro clã ou mes­mo a vários clãs estrangeiros. A crença nas virtudes mági­cas da mulher remonta ao Paleolítico superior, como o atestam as numerosas estatuetas femininas desta época, descobertas na Europa e no Sul da Sibéria. Muito embora simbolizando a bruxaria própria das mulheres, essas figu­rinhas provam o culto nascente da avó, fundadora do clã.

Ao mesmo tempo forma-se a crença nos «espíritos» ou «almas» que animam a natureza. É o que se chama o ani­mismo. A alma, segundo as concepções primitivas, seria como um animal selvagem vigilante, alojado em todas as coisas.

Os homens do Paleolítico superior tinham uma ideia muito confusa da morte: no princípio, eles não dissociavam o mundo real do «além». O medo dos mortos não lhes adveio senão pouco a pouco, seguido de ritos que visam acalmá-los, a proteger contra eles, os viventes.

Uma vez que se desenvolvem a agricultura e a criação de gado, o totemismo, que teria sido a religião fundamental na época da predominância da caça e da apanha, é relegado para segundó plano por ideias muito mais complexas. A terra, força fecunda, fica a ser objecto de um culto que~ nas condições do matriarcado, se confunde com a venera­ção da avó; é a origem do culto da terra alimentadora, que tem por fim contribuir para a fertilidade do solo e que se materializa com a prática mágica da sua fecun­dação.

A evolução da economia e do pensamento incita o ho­mem a diferenciar as forças da natureza, considerada até aí como um todo. Liga-se uma importância especial às for­ças cósmicas e aos fenómenos naturais: o Sol, a chuva, etc., que garantem a colheita e, por tal facto, a própria existência da sociedade humana.

Todavia, o culto da natureza confunde-se muito fre­quentemente com as sobrevivêneias do totemismo, o que engendra imagens híbridas, como o Sol-animal ou o Sol-ave.

Por outro lado, a consolidação do regime dos clãs modi­fica o culto dos mortos. Os defuntos não são considerados como uma força hostil, da qual convém desembaraçar-se quanto antes: começa a ver-se neles antepassados protecto­res O facto é devido a que esse homem, chegado a tomar um certo império sobre a natureza, passa do culto do ante­passado animal (totem) ao do antepassado humano. É des­ta época que datam as lendas da vitória do homem sobre os seus irmãos — aves e animais — e o antropomorfismo.

No culto da terra, das forças da natureza e dos ante­passados, o papel principal cabe ao sacrifício e à prece. A prece é a expressão directa de um desejo: pede-se aos e>piritos dos animais que haja filhos, uma boa colheita. O sacrificio inicial consiste em alimentar o espírito para ubter a sua benevolência. A lenda ingénua dos índios chip­peways conta que o Sol, quando tem fome, lança uma pe­dra a um belo rapaz e torna-o doente; não ficará bom senão depois de ter recebido um sacrifício.

Assim, na origem, os ritos ligavam-se ao processo de produção e impunham-se com a finalidade de agir sobre a natureza através da bruxaria. Ao mesmo tempo, eram o reflexo fantasista das forças que dominavam os homens ila sua vida quotidiana.

Julgando-se capazes de agir sobre a natureza por magia, para terem garantido o sucesso na caça, na colheita e na pesca, os homens não faziam, em suma, senão agravar a sua dependência da natureza: a bruxaria desviava a sua aten­ção das verdadeiras necessidades, esgotava-lhes a sua ener­pia criadora. A religião primitiva consagrava a impotência do homem perante a natureza, impotência da qual era ela mesma o reflexo.

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3 Respostas to “O apogeu do regime comunitário primitivo”

  1. very said

    amei saber q vocês estão expondo a antiguidade a través da internet

    xaus

    bjoks pra vocês autores

  2. Euu adoorei sòò axeei q fikoo uum pokiinho GRAAANDE DEE MAIIS,tiraanu iisso,fikoo òtimoo

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