OPINIÃO

Idéias e opiniões socialistas sobre Sorocaba

Considerações sobre o etnocentrismo e o preconceito em Sorocaba e Médio Tietê.

 

Carlos Carvalho Cavalheiro.

 

Escritor, historiador e ambientalista. Autor dos livros: Descobrindo o Folclore, Salvadora! e Scenas da Escravidão – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba.

Caberá, talvez, à historiografia no futuro desvendar os meandros que possibilitaram ao destaque da Semana da Consciência Negra em 2006, com a ocorrência de debates e palestras, decretos de feriados municipais e semanas comemorativas. Somente para se ater ao limite geográfico proposto neste trabalho, é importante registrar a realização, em Porto Feliz, da II Semana da Consciência Negra; a I Feira Negra de Sorocaba e o decreto de feriado municipal no dia 20 de novembro em Itu.

Provavelmente, esses eventos serão as armadilhas que poderão colocar em dúvida ao historiador do futuro: afinal, o etnocentrismo e o preconceito de cor estiveram presentes em Sorocaba e no Médio Tietê? A resposta, infelizmente, é afirmativa.

Na realidade, o preconceito e a discriminação no passado recente do Médio Tietê (e em alguns momentos em Sorocaba) permite-nos até comparar essa região com o Mississipi estadunidense. No “Mississipi Paulista” a história registra cenas de segregação étnica e violência. Em Sorocaba, por exemplo, é corrente a história de que o Clube 28 de Setembro[2] foi fundado porque os negros não podiam freqüentar os bailes de outros clubes. O mesmo ocorreu em Porto Feliz, onde a comunidade negra construiu o Clube Luiz Gama, ou Sedinha, como ficou conhecido.

Carnaval de 1959. A “considerada” alta sociedade portofelicense lota as dependências do nobre salão de festas do Clube Recreativo Familiar, na época o único da cidade. O brilho, as máscaras, serpentinas e paetês descrevem o momento. A festa tem todos os atrativos para agradar toda a população, se não fosse um triste detalhe: nem todos eram autorizados a entrar no clube, especificamente a população negra.(…)

Em Porto Feliz, coagidos pela lei do separatismo, os negros ainda eram obrigados a pular carnaval na praça do Largo da Penha, escolhida pelo prefeito Lauro Maurino, que mandou cercar o local com arame e bambu. “Fomos tratados como gado naquele ano”, entristece-se o filho de um dos maiores militantes da época, Alfredo Marins, 52 anos.[3]

Em Capivari não parece ser diferente. O Grupo de Tambu, com componentes das cidades de Capivari, Tietê e Piracicaba, costuma cantar um ponto em cujos versos se denuncia a discriminação existente na cidade, especialmente contra os negros, a maioria na dança e música do tambu:

Eu moro em CapivariGosto muito da minha terraSêo João que me perdoeO que eu falar aquiMas precisa acabar o racismoAi, dentro de Capivari.

Voltando ao ano de 2006, foi perceptível a mobilização dos movimentos em prol dos negros afim de buscar dos governos municipais o reconhecimento do dia 20 de novembro como feriado local. Particularmente, não nos parece ser a decretação do feriado o mais importante para a luta em defesa da inclusão social e étnica. Entretanto, é fato, verificou-se uma resistência em algumas localidades com a possibilidade de se levar a efeito tal idéia. Com aparência de justificativa pela não existência do feriado em Sorocaba, o jornal Cruzeiro do Sul lançou um artigo de grande destaque cujo título resumia em duas palavras o porque da inviabilidade e não-representatividade do feriado de 20 de novembro: “Poucos Negros”. O texto informa que segundo dados do IBGE, em Sorocaba somente 17,9% da população se declara negra e que “o pequeno número de escravos é apontado como causa”. Há uma distorção histórica aqui. Em 1780, segundo Aluísio de Almeida, a população negra (e escrava) de Sorocaba girava sim em torno de 1174 pessoas, o que representava cerca de 17,75% da população.[4] Em 1840, o número de negros em Sorocaba chega a 24,96% da população total, sendo que os negros constituíam 34 % da população da vila de Sorocaba.[5] No entanto, já em 1872, os negros e pardos representavam cerca de 37,93% da população. Portanto, o número de negros e pardos escravos em Sorocaba variou muito e foi muito maior proporcionalmente ao que indica os atuais dados do IBGE com relação à população negra em Sorocaba. É verdade, também, que num passado recente o índice de negros na cidade era menor ainda aos 17,9% de hoje. Florestan Fernandes estimou em 15% a população de negros sorocabanos em julho de 1942.[6]

Parece, portanto, frágil a colocação de que a pouca concentração de negros em Sorocaba esteja diretamente relacionada ao “pequeno número de escravos”. Fatores como exclusão social, discriminação, falta de oportunidades e qualificação de mão-de-obra, correntes migratórias, intensificação da imigração e preferência por essa força de trabalho entre outros, explicariam melhor (e mais convincentemente) o porque do êxodo negro em Sorocaba. Em tese, os negros eram livres, depois do 13 de maio de 1888, para ir e vir. Se a população negra, que representava quase 38%, caiu para cerca de 18% é necessário que se verifique quais as condições que foram imperativas para o negro deixar a cidade e não retornar. O preconceito étnico poderia ser um desses fatores, aliado a falta de oportunidade econômica.

Com efeito, em janeiro de 1888, comemorando ainda a liberdade antecipada dos escravos de Sorocaba (ocorrida em 25 de dezembro de 1887), o Diário de Sorocaba publicou nota em que termina dizendo que se obtivera a emancipação dos escravos sorocabanos “sem abalos ou desorganização do trabalho”.[7] Isso porque desde o início dos anos de 1880, pelo menos, os políticos e a classe dominante buscava a substituição dos braços escravos por trabalhadores ‘livres’ chegando a intentar a imigração de chineses para tanto, o que foi considerada como uma infeliz idéia uma vez que “tivemos o elemento servil, lutamos para extinguil o; vamos crear o elemento chim, e no futuro nos acharemos em difficuldades eguaes, se não maiores…”.[8] Acreditava-se que o chinês poderia espantar os imigrantes europeus, desejados por se apresentarem como “modelo do perseverante, honesto, de hábitos morigerados e tendências à poupança e à estabilidade no emprego”.[9]

Ademais, o imigrante europeu servia à ideologia do branqueamento, que procurava diminuir o número de negros e pardos no Brasil, tanto pela proporcionalidade em relação ao número de brancos como através das miscigenações.

Torna-se mais acirrado o preconceito de cor. Não surge daí, mas reforça-se nesse momento. Na realidade, a associação entre a cor de pele escura, a escravidão e a maldição divina já estavam presentes no ideário religioso e servia como um dos elementos pseudo-justificadores[10] da servidão.

E no entanto haveria como opor a certas razões vindas do paganismo, outras, mais merecedoras de geral crédito, porque vindas da Escritura Santa, para mostrar como a pele escura e os cabelos lanosos e arrepiados dos africanos se prendiam antes à maldição que lançou Noé sobre Cã e sua descendência do que à circunstância de terem sido abrasados pelo calor, E essa explicação, aparentemente inexpugnável, encontrou facilmente adeptos, inclusive no investigador inglês das experiências e razões da esfera.A escuridão dos africanos, os etíopes, como eram comumente chamados, resultaria não de uma pretensa intemperança do clima da zona tórrida, que ao mesmo autor parece, ao contrário, a mais saudável e aprazível que desejar se possa, e sim daquela terrível praga ancestral. Tendo ela suscitado uma ‘infecção no sangue dos primeiros habitantes de tais lugares, toda a sua progênie se acha ainda agora, poluída pela mácula da infecção’, escreve. [11]

A idéia de que a maldição divina teria marcado a tonalidade da pele, tornando-a mais escura, serviu de licença para que se cometessem as maiores arbitrariedades e para que se concebesse a idéia de que um ser humano possui o direito de escravizar outro de sua espécie se este último for ‘amaldiçoado’, tiver uma origem maldita. A mesma história de Cam foi citada por Kabengele Munanga para afirmar que “a Igreja Católica fez do preto a representação do pecado e da maldição divina”.[12] Eduardo Bueno também informa que os portugueses “consideravam os negros descendentes de Ham, o filho amaldiçoado de Noé. A cor era o sinal da maldição e justificava a escravidão”.[13]

O mais interessante é que Cã (ou Cam, ou Cão e ainda Ham) foi condenado por ver o pai Noé embriagado e nu, porém, a maldição foi lançada sobre seu filho Canaã. Noé teria dito em Gênesis 9:25: “Maldito seja Canaã! Escravo de escravos será para os seus irmãos”.[14] O texto bíblico não diz que a pele de Canaã, e muito menos a de Cã, teria sido escurecida. Entretanto, diz que a descendência deles seria escrava! E nem mesmo o sinal de Caim, assassino de seu irmão Abel, não está explícito que seria o escurecimento do tom de pele, embora muitos acreditem que sim.[15] Desse modo, corruptos, indecentes, assassinos são amaldiçoados e imediatamente associados com a cor negra!

O Livro de Mórmon traz semelhante relato contando a história dos lamanitas, povo que teria vivido na América, embora originários dos hebreus. No livro 2Néfi, 5: 21 – 22, um dos que compõem o Livro de Mórmon, diz que Deus

… fez cair a maldição sobre eles, sim, uma dolorosa maldição, por causa de sua iniqüidade. Pois eis que haviam endurecido o coração contra ele de tal modo que se tornaram como uma pedra; e como eram brancos, notavelmente formosos e agradáveis, a fim de que não fossem atraentes para meu povo o Senhor Deus fez com que sua pele se tornasse escura. E assim diz o Senhor Deus: Eu farei com que sejam repugnantes a teu povo, a menos que se arrependam de suas iniqüidades.[16]

Por conta dessa maldição, segundo o mesmo livro, esse povo tornou-se “preguiçoso, cheio de maldade e astúcia…”.[17] Já no livro do profeta Alma, também constante no Livro de Mórmon, essa idéia é reforçada com a afirmação de que

… a pele dos lamanitas era escura, por causa da marca que havia sido posta sobre seus pais, como maldição por sua transgressão e rebeldia contra seus irmãos Nefi, Jacó, José e Sam que foram homens justos e santos. E, tendo seus irmãos procurado destruí-los, foram amaldiçoados; e o Senhor Deus os marcou , sim, marcou a Lamã e Lemuel, e também aos filhos de Ismael e à mulheres ismaelitas.[18]

O surgimento do negro, mesmo no folclore, está ligado intimamente a vontade manifesta da divindade em punir e, em outras versões, como criação à parte ou mesmo arremedo de Satanás. Esta última versão foi veiculada no jornal Diário de Sorocaba, despudoradamente, a despeito de se considerar o seu editor como um dos mais apaixonados pela causa abolicionista em Sorocaba. O que se verifica na leitura do texto a seguir é que o preconceito e a discriminação estão presentes mesmo naqueles que se julgam defensores da liberdade dos escravos.

Lenda da creação do preto.No tempo da creação do mundo, Satanaz vendo o Padre Eterno crear Adão, de um pedaço de barro, quis também fazer o mesmo.Pegou n’um pedaço de argila, deu-lhe as mesmas voltar que vira dar-lhe Deus, e depois insfluou-lhe [sic] a vida n’um sopro.Mas com grande espanto e com grande raiva sua, esse bocado de barro, como tudo o mais que elle tocava, ficou negro: – o seu homem era um homem preto.Alli ao pé corria límpido e transparente o branco rio Jordão. Satanaz teve uma idea, lavar o seu homem para lhe tirar a negrura.E pegou n’elle pela cintura como se pega n’um cachorro, e mergulhou-o no rio.Mas as águas do Jordão affastaram-se immediatamente, ennojadas com aquella negrura, e o homem de Satan, o primeiro negro, apenas mergulhou os pés e as mãos no lodo. E por isso só as palmas das mãos e dos pés ficaram brancas.Furioso com o seu desastre, Satanaz perdeu a cabeça, pespegou um furioso murro na cara do seu negro que lhe achatou o nariz e lhe fez inchar os lábios.O desgraçado preto pediu misericórdia, e Satanaz, passado o primeiro momento da fúria, comprehendendo que no fim das contas o negro não tinha nenhuma culpa de ser assim, teve dó d’elle, arrependeu-se de repente do seu gênio e acariciou-o, passando-lhe a mão pela cabeça.Mas a mão do diabo queima tudo em que toca: creslou [sic] o cabello do negro como si os seus dedos fossem ferro de frisar.É [sic] foi d’ahi que preto ficou com carapinha.Si non é vero…[19]

As imagens buscadas para a elaboração do texto acima escancaram a simbologia criada para designar o papel social do negro: criação do diabo, enojando até as águas do rio Jordão, pego pela cintura como um cachorro, um desastre de Satanás… Se não pudermos qualificar a difusão dessa história como propagação do etnocentrismo, como ideologia pró-racista, o que seria então? Respeito às diversidades? Inclusão?

A realidade é que enquanto não reconhecermos que as atitudes discriminatórias permanecem por longo tempo, permeando o imaginário com suas crenças e preconceitos, e não admitirmos que esse estado de coisas possui uma raiz histórica, estaremos sempre deixando uma ferida aberta e purulenta que não se fecha e da qual não se busca a cura.

Na década de 1940 e 50, conforme já foi aqui dito, surgiam clubes para a freqüência da população negra, como foram os casos de Sorocaba e Porto Feliz. Entretanto, no final do século XIX já havia denúncias de pessoas barradas em bailes de Sorocaba por motivo de cor da pele.

[…] Tantas e tantas vezes tenho dançado na Capital e em outras grandes cidades, e só em Sorocaba, minha pátria, é que fui enxotado por quem com mais razão deveria se enxotado d’entre as pessoas que presam a sua dignidade?Pois será possível que em Sorocaba ainda reine o mais grosseiro caipirismo, tanta imbecilidade, ao ponto de qualquer caboclinho sonhar ser um legítimo fidalgo da raça mais pura – tratando a toda e qualquer pessoa morena de 13 de Maio embora seja nascido de ventre livre, como eu, e não reparar no que faz perante o público – como aquella da noite de 20 do corrente? […] João de Moura S. R.[20]

E João de Moura da Silva Ramos tinha um motivo a mais para reclamar: comprou o bilhete de entrada ao baile, pagou por ele sem nenhuma restrição e só foi barrado quando chegou á portaria do clube! Se não poderia adentrar ao clube, por que aceitaram que comprasse a entrada? No Paraná, segundo observação de Octávio Ianni, se um mulato se vestisse bem poderia até freqüentar o clube da elite branca! [grifos nossos].

Logo após a abolição da escravidão realizou-se em Sorocaba uma campanha contra a vadiagem, deixando claro que aos escravos libertos que deveriam aplicar-se “ao trabalho, com esforço e tenacidade, agora mais do que nunca” se não quisessem sofrer as conseqüências da guerra á vadiagem.[21] Nesse contexto, as diversões e as práticas sociais dos negros eram vistas com receio e logo associadas à imoralidade e à vadiagem.

Uma interessante crônica publicada no Rio de Janeiro foi na imprensa sorocabana reproduzida com a justificativa de que o descrito no texto “é o mesmo que se dá em toda a parte nós com os taes srs. criados e as sras. criadas”.[22]

“Ninguém póde com a respeitavel grey de srs. criados a servir e suas respectivas costellas morganaticas.

Depois da lei da abolição redobrou a ruindade d’essa gente e de tal maneira, que não há meio de conseguir-se em casa serviço que preste.O paraty e a insolencia, que já eram apanagio dos srs. famulos e das sras. criadas, tomaram conta da casta e porzeram-n’a em tal estado de imprestabilidade, que, já agora, o que a gente deve fazer é tratar de pedir á immigração o indispensável auxilio para a regularidade no serviço doméstico.\O muito conhecido e nunca assaz decantado princípio do tão bão como tão bão está n’uma vaga desesperadora.As patroas têm o tratamento de ella, e as venerandas serviçaes a indispensavel cortezia de Senhora Dona; sem o que não há meio de ter quem nos faça os bifes e nos lave a roupa. Criada que durma em casa dos patrões, é cousa que se tornou tam rara como o diamante preto.Todas ellas (perdão… todas essas senhoras) fazem, ao entrar para o serviço de uma família as suas condições de bem viver e de bem servir: há domingos e dias santificados, que Deus Nosso Senhor manda guardar; há os sabbados, á noite, que são consagrados aos bailaricos do maxixe; há o dia da Penha, o dia de Nossa Senhora da Gloria do Oiteiro, o da festa de São Benedito e outros quejandos, que não pódem entrar na conta dos de trabalho, e, apesar d’isso, representam quota do salário mensal.Si há escadas a subir, falta de manteiga no pão, mingua de assucar no café, ausência de sobremesa ao jantar e presença de olho fiscalisador no serviço doméstico, lá vem os muchochos, as murmurações, as queixas, os “hum, hum, cruz, Ave Maria, não istou p’ra mi matá…” e outras exclamações do mesmo jaez, prenúncio de uma despedida quasi formal. \Quando lhes dá na cabeça, previnem á patroa para que annuncie quem a substitua, senão (o que é mais vulgar) muscam-se da casa e só apparecem dói ou três dias depois, para receber a importância dos dias em que trabalharam (?!)…Si se lhes não paga incontinenti, lá vem descompostura de caloteiro para baixo, e a infallivel ameaça: “vou fazê quexa na estação”, “hei de mostrá p’ra quanto serve o seu sobredelegado”, etc., etc. […] [23]

A verdade é que a classe dominante (e mesmo a chamada classe média, a dos homens livres que se acostumaram a utilizar-se do trabalho dos escravos), se ressentia da nova situação jurídica e social dos ex-escravos. Afinal, como homens e mulheres livres, teriam o suposto direito de vender a sua força de trabalho a quem lhe aprouvesse, no tempo em que quisesse. Ou então, como condição sine quae non para a liberdade, poderiam optar por trabalhar ou se divertir nas festas dos santos ou nos batuques. Deveriam preservar a sua dignidade, a tão pouco tempo cerceada, e exigir um tratamento cortês! Em vez disso, o articulista enaltece a “ruindade” dessa gente insubmissa, que não se dobra mais diante dos desmandos, diante do atraso nos salários, que busca a justiça e as autoridades a fim de assegurar um direito seu! O discurso da liberdade, do estado de direito, do liberalismo, vai mostrando a sua verdadeira face. E o exemplo não é recente. Um curioso documento pertencente ao Arquivo Público Municipal de Porto Feliz, cópia xerográfica na realidade, demonstra a preocupação de um liberal em 1821 aos senadores com relação a exigência de liberdade dos escravos que assimilavam o discurso do liberalismo.

Senhores do Nobre SenadoOs princípios liberais tem produzido uma salutar fermentasam: o direito natural, e a Política fazem o objeto de nossas conversasoins; e o dezejo de gerarmos uma constituisam verdadeirame social, é por toda parte proclamado pela doce palavra, mas tantas vezes fatal de “liberdade”.O fim da nossa constituisam é operar a felicide geral dos Povos; suprimir e prevenir o despotismo; tornar ao povo obediente aos Magistrados, e os Magistrados á Ley; vindo a concistir a liberdade do omem social, no poder ezecutar o q as Leys nam proíbem: o seo direito em fazer as suas leys por seos deputados, e o seo dever de submeter-se a Ley, e d. respeitar as Autorides.Porém, senhores, esta fermentasam dos espíritos, estas máximas de liberdade, mal entendidas, e alteradas se tem infelizme difundido pela clase desgrasada mas formidável de nossos escravos q. ensaiam o momento de se tornarem livres.Eles conversam quotidianamente na dureza d. sua sorte, gaguejam direito natural, protestam deixar-nos; e afirmam uns aos outros q. já El Rey os libertou, e q. somos nós q. os retemos na escravidam. [24]

Esse documento é importante testemunha de que o escravo não estava alienado em relação ao que acontecia em sua volta, ao contrário, assimilava ideologias políticas que lhe pudessem servir ao propósito de liberdade ou mesmo de mobilidade social. O que espantava a elite era o fato da capacidade de compreensão dos escravos sobre temas como o liberalismo. Não eram, portanto, os brutos e incapazes que imaginavam os senhores brancos. Ao contrário, demonstravam inteligência e sagacidade porquanto não apenas reproduziam o discurso (como muitos brancos fizeram), mas iam além e buscavam nas idéias aquilo poderia beneficiá-los, modificando a sua condição social e jurídica. Por esse motivo é infundada a crença amplamente difundida de que as amas de leite negras transmitiam não só doenças físicas como desvios de caráter. [25]

Por esse motivo recomendava-se o aluguel de amas-de-leite de “faces rosadas” e robustas. Não é à toa, portanto, que um anúncio buscando os serviços de uma ama-de-leite, publicado em Sorocaba no ano de 1878, tivesse estampado o pré-requisito para o contrato: teria de ser branca e sadia.[26]

Carlos Carvalho Cavalheiro.

Escritor, historiador e ambientalista. Autor dos livros: Descobrindo o Folclore, Salvadora! e Scenas da Escravidão – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba.


[1] Optou-se pelo termo etnocentrismo em detrimento do termo “racismo” por se acreditar que o conceito de raça, para a espécie humana, seja impreciso e causador de distorções e interpretações equivocadas (como, por exemplo, a existência de raça superior e inferior; a compatibilidade de algumas “raças” a determinadas ordens sociais e predisposição ao escravismo – por ser uma característica da “raça”; etc.). Não se desconhece que muitos, incluindo os que militam nos movimentos negros, utilizam o termo raça para designar as diferenças exteriores dos seres humanos. Parece, entretanto, que o termo etnia seja o mais adequado e preciso.

[2] Clube de bailes dos negros sorocabanos, fundado em 1945.

[3] Revista Viu!, Dez 2005 – n. 43, pp. 22 – 23.

[4] ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba. Sorocaba: IHGGS, 1969, p. 163.

[5] CAVALHEIRO, Carlos Carvalho. Scenas da Escravidão – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba. Sorocaba: Crearte, 2006, p. 20.

[6] FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1972, p. 234.

[7] Diário de Sorocaba, 10 jan 1888, p. 02.

[8] Diário de Sorocaba, 31 maio 1881, p.01.

[9] MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. São Paulo: Ática, 1988, p. 69.

[10] MUNANGA, Kabengele. Negritude – Usos e Sentidos. São Paulo: Ática, 1988, p. 15.

[11] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso. São Paulo: Publifolha, 2000, pp. 358 – 9.

[12] MUNANGA, op. Cit., p. 15.

[13] BUENO, Eduardo. Brasil: Terra à vista! A Aventura ilustrada do Descobrimento. Porto Alegre: L&PM, 2003, p. 23.

[14] Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000, p.07.

[15] Gn. 4:15.

[16] O Livro de Mórmon – Outro testamento de Jesus Cristo. Utah (EUA): A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 1997, p. 74.

[17] 2Ne. 5: 24.

[18] Al. 3: 6 – 7.

[19] Diário de Sorocaba, 12 nov 1887, p. 02.

[20] Diário de Sorocaba, 30 abr 1889, p. 02.

[21] CAVALHEIRO, Carlos Carvalho. Scenas da Escravidão – Breve ensaio sobre a escravidão negra em Sorocaba. Sorocaba: Crearte, 2006, pp. 178 – 179.

[22] Diário de Sorocaba, 30 out 1889, pp. 01 – 02.

[23] Idem, ibidem.

[24] Caixa 160 – Documentos de 1821. Acervo: Arquivo Público Municipal de Porto Feliz / SP.

[25] CAVALHEIRO, Op. Cit., 2006, pp. 129 – 131.

[26] Gazeta de Sorocaba, 19 fev 1878, p. 04.

Uma resposta to “Considerações sobre o etnocentrismo e o preconceito em Sorocaba e Médio Tietê.”

  1. Amanda said

    Olá Carlos, como vai?

    Você pode me passar o seu e-mail, por favor?

    Abraços e antecipadamente agradeço.

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