OPINIÃO

Idéias e opiniões socialistas sobre Sorocaba

PARTE -2 – COMO NASCE O CAPITAL

 

PARTE -2

 

 

COMO NASCE O CAPITAL

 

 

Observando atentamente aquela formula do capital ( D – M – D1 – M – D2 …), chega-se à conclusão de que a questão da origem do capital se resolve, em última análise, nesta outra questão: encontrar um mercadoria que dê mais dinheiro do que se gastou em sua compra. Em outras palavras, encontrar uma mercadoria que, em nossas mãos, possa aumentar de valor, de tal modo que, vendendo-a, se possa ganhar mais dinheiro. Portanto, deve ser uma mercadoria bastante elástica para ser capaz de aumentar o seu valor, a sua grandeza de valor. Esta mercadoria tão singular existe: é a forças de trabalho.

 

Aí está. O homem do dinheiro acumulou riqueza e quer dessa riqueza criar um capital. Ele chega ao mercado com endereço certo: comprar forças de trabalho. Vamos segui-lo! Ele anda pelo mercado e dá de cara com o operário, que está ali exatamente para vender sua única mercadoria: a força de trabalho. Mas o operário não vende a sua mercadoria de uma só vez e para sempre. Ele vende a sua força de trabalho em parte, por um dado tempo, um dia, um mês, etc. Se o operário vendesse sua força de trabalho, sua capacidade de trabalho inteiramente, não seria mais um mercador e se transformaria ele mesmo, sua pessoa, em mercadoria; não seria mais um assalariado, mas um escravo do seu patrão.

 

O preço da força de trabalho se calcula da seguinte maneira: tomam-se os preços dos alimentos, da roupa, da habitação, enfim, de tudo que é necessário ao trabalhador para se manter a sua força de trabalho durante o ano e sempre em estado normal. Acrescenta-se, a esta primeira soma, o preço de tudo que é necessário ao trabalhador para procriar, alimentar e educar seus filhos, segunda condição: depois divide-se o total pelos dias do ano – 365 – , e se saberá quanto,por dia, é necessário para manter a força de trabalho, o seu preço diário, que é o salário diário do operário. O que o trabalhador precisa para procriar, alimentar e educar seus filhos entra neste calculo, porque os filhos do trabalhador representam à continuação da força de trabalho. Assim, se o operário vendesse por inteiro a sua força de trabalho, não apenas ele, mas também seus filhos seriam escravos do seu patrão, eles seriam também, mercadoria. Porém, como assalariados, ele tem o direito de conservar todo o resto, que se encontra parte nele e parte nos filhos.

Com aquele calculo obtivemos o preço exato da força de trabalho. A lei das trocas, como vimos no capitulo anterior, diz que uma mercadoria não pode ser trocada por outra se não tiveram o mesmo valor; isto é, se o trabalho que se requer para produzir uma não for igual ao trabalho que se requer para a produção da outra. Ora, o trabalho que se exige para produzir o que é necessário ao trabalhador e, portanto, o valor das coisas necessárias ao trabalhador é iguala ao valor de sua força de trabalho; se o trabalhador necessita de R$ 100,00 por dia para, comprar todas, as coisas que lhe são necessárias, logicamente R$ 100,00 será o preço diário de sua força de trabalho.

 

Pis bem. Sem alterar em nada o que falamos até aqui, podemos supor que o salário diário de um operário alcance R$ 100,00. Suponhamos, ainda, que em 6 horas de trabalho sejam produzidas 15 gramas de prata, que equivalem aos R$ 100,00. Agora voltemos ao mercado.

 

Lá, enquanto isso, o homem do dinheiro fez um contrato com o proprietário da força de trabalho, pagando o seu justo preço de R$ 100,00. Ele é um burguês muito honesto e alem disso, muito religioso, incapaz de especular com a mercadoria do operário. Nem é necessário dizer que o salário do operário só vai ser pago no fim do dia, ou da semana, ou do mês. Enfim, só depois que ele trabalhou depois que ele produziu, é que ele recebe o salário. É o que acontece também com outras mercadorias, cujo valor se realiza no uso, como é, por exemplo,o caso de uma casa,ou do arrendamento de uma terra, cujo preço precisa ser pago de acordo como prazo estabelecido.

 

Estes são os três elementos do processo do trabalho:

 

1)       Força de trabalho;

2)       Matéria-prima;

3)       Meios de produção.

 

Bem voltemos ao nosso homem de dinheiro: depois de comprar a força de trabalho, comprou também à matéria-prima, no caso algodão; os meios de trabalho, isto é, a fábrica com todos os instrumentos e condições de trabalho, já perfeitamente preparados. E agora, diz ele, saindo apressado do mercado:  Mãos à obra!

 

Uma certa transformação parece ter-se dado na fisionomia dos personagens de nosso drama. O homem do dinheiro toma a dianteira, na qualidade de capitalista, o proprietário da força de trabalho segue-o, como seu trabalhador. Aquele, com a aparência honrada, satisfeita e atarefada; o outro, tímido, hesitante, com a sensação de quem vendeu a própria pele, no mercado e que agora não pode mais esperar outra coisa senão… ser esfolado.

 

Enfim chegam à fábrica. O capitalista se apressa em botar o seu operário para trabalhar, entregando-lhe dez quilos de algodão. Antes que me esqueça, esse operário é fiandeiro, produz fio de algodão.

 

É consumindo os seus três elementos: a força de trabalho, a matéria-prima e os meios de trabalho, que o trabalho se realiza.

 

O consumo dos meios de trabalho calcula-se do seguinte modo: da soma do valor de todos os meios de trabalho – o prédio, suas instalações, as ferramentas, o óleo, a eletricidade, etc. – subtrai-se a soma do valor dos meios de trabalho consumidos no processo de trabalho; dividindo-se o resultado dessa subtração pelo numero de dias que os meios de trabalho possam durar, temos o consumo diário dos meios de trabalho.

 

Parece complicado, não? Vamos repetir isso, exemplificando com números:

 

Suponhamos que os meios de trabalho (a fabrica com suas instalações, máquinas, ferramentas, etc.) devam durar 10 anos ou 3650 dias. Por todos esses meios de trabalho, o capitalista desembolsou, por exemplo, R$ 1.460.00,00. Dividindo-se essa quantia por 3650 dias, temos R$ 400, 00, que corresponde ao consumo diário dos meios de produção.

 

O nosso operário trabalhou durante toda uma jornada de 12 horas. Ao final dessa jornada ele transformou os 10 quilos de algodão bruto em 10 quilos de fio; entregou-os ao patrão e deixa a fabrica, retornando para a casa. No caminho, como todo o operário, ele vai fazendo as contas, para saber quanto o seu patrão poderá ganhar com aqueles dez quilos de fio.

 

– Não sei exatamente quanto custa o fio – vai dizendo para si mesmo -, mas, de qualquer modo, a conta esta praticamente feita. O algodão cru, eu mesmo vi que ele comprou no mercado: R$ 300,00 por quilo. Todas as suas ferramentas podem ter um consumo, digamos de R$ 400,00 por dia. Bem:

 

10 quilos de algodão                                                     R$ 3.000,00

Desgaste diário dos meios de produção                         R$    400,00

Meu trabalho hoje                                                         R$    100,00     

Total da produção dos 10quilos de algodão                     R$ 3.500,00                 

 

 

Ora, certamente, sobre o algodão ele não ganhou nada: pagou o seu justo preço, nem um centavo a mais, nem um centavo a menos; do mesmo modo ele comprou minha força de trabalho, pagando seu justo preço de R$ 100,00 por dia.

 

Então continua pensando nosso fiandeiro, ele só pode ganhar vendendo o fio acima do seu valor. Não pode vir de outra coisa, ele nunca perderia tempo e energia, gastando R$ 3.500,00, para depois vender tudo e receber os mesmíssimos R$ 3.500,00. Oh! Como são os patrões! A nós trabalhadores, traquejados no mercado, ele não tem como disfarçar… E esses patrões têm ainda a mania de bancarem os honestos na frente dos trabalhadores… mas é um roubo vender uma mercadoria por mais do que ela vale; venderá com peso falso, um quilo de novecentos gramas. Isto é proibido por lei. É um roubo! As autoridades vão ter que fechar suas fabricas. Vai ser bom! Em seu lugar, construiremos grandes fabricas publicas, onde nós produziremos as mercadorias de que precisamos.

 

Assim fantasiando, o operário chega em casa. Após jantar, se enfia na cama e adormece profundamente, sonhando com o desaparecimento dos capitalistas da face da terra e com as grandes fabricas publicas.

 

Dorme pobre amigo, dorme, enquanto te resta uma esperança. Dorme em paz, que os dias de desengano não tardarão a chegar. Mais cedo do que pensas, vais entender por que os capitalistas podem perfeitamente vender sua mercadoria com lucro, sem para isso precisar enganar a ninguém. Ele mesmo te mostrara como pode ser tornar capitalista e mesmo um grande capitalista, sem perder um fio de honorabilidade. Então, o teu sono não será mais tão tranqüilo assim. Verás, em tuas noites, o capital, como um pesadelo, que te oprime e ameaça sufocar-te. Com os olhos e terrorizados, vais vê-lo crescer, como um monstro com cem dentes de vampiro penetrando nos poros do teu corpo, para chupar o teu sangue. Tomando proporções desmesuradas e gigantescas, de sombrio e terrível aspecto, com olhos e boca de fogo, vais vê-lo transformando suas garras em uma enorme tromba aspirante em que vão desaparecendo milhares de seres humanos: homens, mulheres, crianças. De tua fronte corre agora um suor de morte, porque o monstro esta se aproximando, para agarra a ti, tua mulher e teus filhos. Mas teu último gemido será abafado pelo riso apavorante do monstro, satisfeito em sua gula. Quanto mais prospero, mais desumano…

 

Voltemos ao nosso homem do dinheiro.

 

Este burguês modelo de exatidão e ordem acertou assuas contas do dia; vejam como ele calculou o preço dos seus dez quilos de fio:

 

Dez quilos de fio (R$ 300,00 por quilo)                R$ 3.000,00

Desgaste diário dos meios de produção             R$    400,00

 

Mas, quanto ao terceiro elemento, que entrou na formação de sua mercadoria, que é o salário pago ao operário, ele nada assinalou isto, porque conhece muito bem a diferença que há entre preço da força de trabalho e o preço do produto da força de trabalho.

 

O salário de uma jornada de trabalho representa o necessário para manter o operário em 24 horas, mas não representa de fato o que o operário produziu em uma jornada de trabalho. O nosso homem do dinheiro sabe perfeitamente que os R$ 100,00 de salário que ele paga, representam a manutenção de seu operário por 24 horas e não o que este produziu nas 12 horas de trabalho em sua fábrica. Ele sabe tudo isso, exatamente como o agricultor sabe a diferença que existe entre o que é manutenção de uma vaca com seus currais, alimentação, etc., e o que esta vaca produz em termos de leite, queijo, manteiga, etc.

 

A força de trabalho tem uma propriedade singular de render mais do que custa e é por isso que o homem do dinheiro vai buscá-la no mercado. E o operário não pode reclamar, porque ele pagou o preço justo pela sua mercadoria. A lei das trocas foi rigorosamente observada. Além do que, o operário não tem que se meter no uso que o comprador fará de sua mercadoria, do mesmo modo que o dono do armazém nada tem a ver com o uso que seu freguês dá às mercadorias que vende.

 

Página atrás, supôs que em 6 horas de trabalho se produzem 15 gramas de prata, equivalentes a R$ 100,00. Ora, se em 6 horas a força de trabalho produz um valor de R$ 100, 00, em 12 horas produzirá, portanto um valor de R$ 200,00. Assim, o valor dos 10 quilos de fio passa a ser calculado desse modo:

 

 

Dez quilos de fio (R$ 300,00 por quilo)                            R$ 3.000,00

Desgaste diário dos meios de produção                         R$    400,00

Pelas 12 horas de trabalho da força de trabalho              R$    200,00

Total                                                                            R$ 3.600,00

 

 

O homem do dinheiro, depois de ter gasto R$ 3.500,00, obteve uma mercadoria que vale R$ 3.600,00. Consegui, portanto, embolsar R$ 100,00. O seu dinheiro deu cria; pronto, resolvemos o problema: o capital acaba de nascer.

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2 Respostas to “PARTE -2 – COMO NASCE O CAPITAL”

  1. Saraiva José Muando said

    Percebi que a mercadoria tinha de facto duplo valor, valor de uso, valor de troca.
    A questão é a seguinte:
    Onde vai-se enquadrar a pedra de construção, por exemplo?

  2. jose carlos said

    voceis estao de parabens.

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