OPINIÃO

Idéias e opiniões socialistas sobre Sorocaba

“Autoridades esquecem-se do passado grevista e jogam contra a consciência política”.

Posted by alexproenca em outubro 19, 2011


Fonte: Blog do Artur Henrique

A greve é mais que um direito constitucional e um instrumento legítimo para os trabalhadores cobrarem aumentos salariais, proteção e ampliação de direitos e melhoria das condições de vida em geral.

Um movimento grevista também é um dos principais momentos para elevar a consciência crítica da população. É uma oportunidade de as pessoas se enxergarem como conjunto transformador, e por isso guarda em si potencial de catarse política, de passagem para uma experiência ativa de mudança do mundo social.

Compreendido esse potencial, entende-se porque as greves são tão hostilizadas – embora, e propositalmente, jamais de modo a apontar o verdadeiro temor – pelos patrões em geral e todo o sistema hegemônico de que dispõem.

O que não se pode entender ou mesmo aceitar é que administradores públicos das três esferas de governo, especialmente aqueles que têm origem no movimento sindical e nas lutas sociais, tentem desqualificar a greve ou coloquem-se contra o movimento como se defendessem um princípio.

Acompanhamos em greves recentes e bastante disputadas – como a dos professores em 17 estados brasileiros e a dos Correios – manifestações autoritárias e reacionárias que se prestaram à deseducação política e à desmobilização social.

Nem vamos nos deter mais longamente em reações truculentas como a de alguns governadores e prefeitos que permitiram ou talvez até tenham ordenado a repressão policial sobre os trabalhadores, tamanho o absurdo da conduta.

Porém, não é preciso chegar a tal manifestação antidemocrática para ser igualmente nocivo à organização dos trabalhadores. A ameaça de não negociar com grevistas ou a intenção de negociar separadamente com aqueles que não aderiram à greve é uma tentativa de premiar o medo, a timidez e, principalmente, o individualismo. Ainda que a escolha de participar ou não de uma greve seja um direito legítimo de cada trabalhador e trabalhadora, quando uma autoridade pública acena positivamente para aqueles que optaram pela via solitária, presta desserviço igual à construção da consciência política coletiva e ao sonho de mudar a sociedade.

Quando atitudes como essa partem de companheiros que já foram sindicalistas e que já fizeram greve, deparamo-nos com uma ameaça séria. Claro que não podemos nos deixar levar pela sensação de desalento que tal situação poderia produzir, mas é inevitável um travo de decepção na garganta – sem falar que a conduta desses companheiros serve como justificativa para políticos tradicionalmente avessos às lutas populares.

Devemos lembrar que no Brasil de hoje há ministros e presidentes de estatais que só chegaram lá porque fizeram greves ao longo de suas trajetórias. Esquecer-se disso é jogar contra a proposta de transformação social que tem nos guiado nas últimas décadas. Se queremos construir um novo modelo de desenvolvimento, com ênfase na distribuição de renda, na superação das desigualdades e na afirmação da liberdade, devemos repudiar tal comportamento demonstrado por algumas autoridades públicas nos últimos dias.

Se nosso desejo é que as pessoas que hoje saem da pobreza e começam a ascender socialmente não reproduzam amanhã o mesmo espírito de competição entre iguais do qual já foram e ainda são vítimas, se queremos a solidariedade como princípio e o coletivo como estratégia, nosso caminho é totalmente outro.

Greve não é um objetivo em si

Nada disso quer dizer que a greve seja algo que busquemos como recurso primeiro. Ao contrário. Quando acontece, a greve é resultado de um processo de negociação que fracassou. Em circunstâncias assim, é o último e único recurso de pressão dos trabalhadores, diante da multiplicidade de mecanismos de que dispõem os empregadores – força econômica, domínio dos meios de comunicação e até controle das forças de repressão.

Os mais bem sucedidos processos de negociação, por sua vez, derivam da realização de greves em períodos anteriores que elevaram o grau de consciência política e organizativa de determinados grupos.

Já o fracasso de um processo de negociação não pode ser atribuído a um único ator do processo. Tanto no setor privado quanto no público, os administradores têm entre suas funções básicas a intermediação de conflitos trabalhistas.

Justiça do trabalho

Por isso consideramos inadmissível que a Justiça do Trabalho, como alguns de seus mais destacados representantes fizeram por ocasião da greve nos Correios, atribua aos trabalhadores e seus sindicatos a responsabilidade total pelas paralisações.

Aliás, a chegada de um conflito entre capital e trabalho até a Justiça é o pior cenário de um movimento grevista, pois sinaliza o fracasso completo do processo de diálogo.

Ainda sobre a Justiça do Trabalho, é importante destacar – registre-se que isso não ocorreu no caso dos Correios – a prática cada vez mais recorrente de julgar a conveniência ou o caráter abusivo da greve antes mesmo de considerar a justeza das reivindicações.

Já na Justiça comum, desse modo de avaliar os movimentos grevistas derivam-se os interditos proibitórios, que impedem os trabalhadores de se reunir nas proximidades da empresa em momentos de mobilização. Outro absurdo.

Vivemos no Brasil um momento complicado em relação aos processos de negociação coletiva. Há um vácuo legal para o qual já propusemos, para o setor público, a regulamentação da Convenção 151 do OIT – já ratificada pelo Congresso – e a organização por local de trabalho tanto para o setor privado quanto para o público.

Um dos legados dos anos Lula e Dilma deve ser a ampliação da consciência e participação política do povo, jamais o contrário.

No mundo inteiro

Enquanto isso, os indignados de todo o mundo vão às ruas protestar contra o capitalismo, ainda que de forma fragmentada, com bandeiras múltiplas, reivindicando uma nova forma de gerir o planeta. Todos que acampam, levantam bandeiras e batem bumbo querem dizer, se me permitem o uso de uma frase que os estadunidenses criaram, com sua capacidade toda própria adquirida graças ao cinema e à publicidade: “Você não me deixa sonhar, então eu não deixo você dormir”.

O Brasil, que pleiteia, com justiça, uma posição de comando na diplomacia internacional, bem que poderia dizer ao mundo, durante as cerimônias públicas e nas coletivas de imprensa de fóruns mundiais como o próximo G-20, que não há nada comprovadamente mais eficaz contra a crise do que a organização da classe trabalhadora, ao mesmo tempo responsável pela produção e pelo consumo.

Arrisco-me a dizer ainda que a América Latina, a partir de suas experiências contra-hegemônicas, tem todo o direito de propor aos povos do Hemisfério Norte a desobediência ao sistema financeiro, esse que rouba nossos sonhos.

Artur Henrique é presidente da CUT Nacional.

PS do Viomundo: “Afinal, que autoridades se esquecem que já fizeram greves  e jogam contra os trabalhadores e a consciência política?”, alguns devem estar querendo saber. Um é  o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, que disse: “Greve não é férias”. Outro é o presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, que afirmou: “Com grevistas, eu não negocio”. Ambos ex-sindicalistas ligados à CUT. Vale recordar também o comportamento das direções da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, que agiram como se fossem de bancos privados e não jogaram os respectivos pesos na Fenaban, para abrir negociação com os bancários.

Uma resposta to ““Autoridades esquecem-se do passado grevista e jogam contra a consciência política”.”

  1. Thelma Kai said

    Esclarecimento dos Correios

    Com relação à informação publicada no dia 18 de outubro no blog “Vi o Mundo” e replicada pelo site Opinião no dia 19, os Correios esclarecem que o presidente da empresa, Wagner Pinheiro de Oliveira, nunca afirmou que não negociaria com grevistas. Fatos abaixo comprovam a disposição constante em buscar uma conciliação. Já a frase atribuída ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, foi publicada fora de contexto, sem explicar que a autoridade estava informando à imprensa o motivo do desconto dos dias não trabalhados.

    Os Correios mantêm um sistema permanente de negociação para debater reivindicações da categoria, com um calendário de reuniões estabelecido. Desde o início do ano, a representação sindical foi recebida diversas vezes pela Diretoria dos Correios para tratar das mudanças do Estatuto Social da empresa. O presidente dos Correios participou, junto com as representações dos trabalhadores, de audiência pública na Câmara dos Deputados para debater as medidas de modernização da ECT.

    A negociação específica do Acordo Coletivo começou no final de julho, com reuniões semanais, e durou mais de 40 dias. A empresa apresentou duas propostas ao sindicato antes da greve; ambas foram rejeitadas e sem a apresentação de nenhuma contraproposta, o sindicato deflagrou a greve.

    Durante a greve, a empresa chamou o sindicato para negociar em mais de uma ocasião, inclusive melhorando a proposta financeira, que também foi rejeitada. Os Correios também aceitaram sugestão do sindicato para participar de negociação mediada no Ministério Público do Trabalho e aceitaram a proposta de acordo resultante da reunião. Na negociação no Tribunal Superior Trabalho (TST), novamente os Correios mantiveram-se abertos ao diálogo e à negociação.

    Os resultados da decisão de negociar são concretos: a empresa e a representação sindical fecharam neste ano dois acordos de Participação nos Lucros e Resultados (2010 e 2011). Apenas a título de exemplificação da mudança ocorrida na ECT, cabe ressaltar que nos oito anos anteriores só um acordo havia sido fechado – a decisão da empresa era imposta aos trabalhadores sem negociação.

    Assim, fica claro que a Diretoria dos Correios mantém diálogo com os trabalhadores de forma permanente, por entender que a negociação é condição necessária para a prestação de um serviço de qualidade.

    Departamento de Relacionamento Institucional dos Correios

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