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Chari: O plano de Obama é cruzar os dedos e rezar por um milagre.

Posted by alexproenca em março 23, 2009


Chari: O plano de Obama é cruzar os dedos e rezar por um milagre

Atualizado em 22 de março de 2009 às 22:14 | Publicado em 22 de março de 2009 às 22:06

O professor V.V. Chari, da Universidade de Minnesota, é um dos críticos do programa de resgate bancário dos Estados Unidos por acreditar que ele não ataca o essencial: a definição de quem vai pagar pela crise. O governo Obama, politicamente dominado pelos representantes do mercado financeiro, parece acreditar numa solução que não imponha perdas maiores que as que os acionistas já tiveram.

Duas respostas do professor Chari em uma recente entrevista:

“Deixe-me começar com o básico. É muito simples. Para um grande número de instituições financeiras, o que aconteceu é que o valor de mercado dos bens é menor que o valor das dívidas. Elas devem mais dinheiro do que o valor dos bens que constam no balanço.

É aritmética simples: alguém ter de arcar com a diferença. Isso é confrontar a realidade econômica básica. Alguém tem de conciliar os dois lados do balanço. Podem ser os contribuintes, com a injeção de dinheiro público ou podem ser os credores — os donos da dívida — que ficam com parte da pancada.

Quais são os custos e os benefícios de ter os contribuintes pagando a conta? Além da questão de distribuição de renda — por que um contribuinte pobre de Kansas City deve salvar um gato gordo de Wall Street? — o problema é que os donos da dívida ficarão convencidos de que serão resgatados toda vez que houver crise, com isso reduzindo o incentivo que têm para monitorar os bancos com os quais fazem negócios. Então, você perde disciplina no mercado. A perda de disciplina no mercado significa que os gerentes de instituições financeiras serão incentivados a enfrentar muito mais risco. Já que os credores nunca perdem, os acionistas serão beneficiados e os contribuintes vão ficar com a conta.

Essa questão moral, esse problema de que tal empresa é muito grande para falir, pode provocar crises financeiras recorrentes. Esse é o problema. E o que você faz ao salvar um banco hoje é evitar a dor de curto prazo, mas assumir para si mesmo a dor de médio prazo, aumentando as chances de outras crises financeiras e o risco de enfrentar problemas de longo prazo.

As agências de regulamentação, como sabem que vai aumentar a possibilidade de crises financeiras, se adiantam e tentam regulamentar estritamente os bancos e instituições financeiras. Em muitos casos, quando isso acontece, acabam retardando inovações e reformas do sistema bancário. Você acaba num terrível círculo vicioso no qual as crises financeiras se tornam mais comuns, as autoridades regulamentam mais o setor, a inovação financeira declina e os bens não são retirados das mãos de pessoas não equipadas para gerenciá-los.

É a situação em que estamos nos metendo. Não estou falando em problemas dentro de 20 anos. Estou falando de problemas que o Japão enfrentou depois de um ano ou dois, mesmo depois de seis meses. Esse é o tipo de caos em que estamos nos enfiando. E somos tentados a pensar que os formuladores de política entenderiam isso, mas eles não parecem entender as lições da história. Estou confuso com isso.

Voltemos à questão da nacionalização. No caso da Suécia eles nacionalizaram os bancos mas protegeram os credores dos bancos. Não acho que essa seja a solução para o caso dos Estados Unidos.

Há muitas pessoas que falam sobre nacionalização como uma forma de assumir a empresa e fazer com que os acionistas e os credores percam tudo. Se estão falando em cancelar parte da dívida de credores das instituições financeiras, eu diria que pela teoria econômica isso faz sentido. Se for para proteger os credores — nacionalizar e provocar perdas apenas dos acionistas — isso não resolve o problema de curto e médio prazos. De fato, pode até exacerbar, porque como vimos nos casos da seguradora AIG e do banco Bear Stearns e uma variedade de outras instituições, o governo dos Estados Unidos não está bem preparado para administrar grandes instituições financeiras.

Qualquer proposta de nacionalização — mesmo a dos mais ardentes defensores da idéia — fala no retorno das empresas ao controle privado. Se você vai devolver a empresa para o setor privado sem cancelar as dívidas, não resolveu o problema fundamental. A nacionalização dá certo se significa perdas para os acionistas. E não funciona se preservar completamente os direitos dos credores. É assim que eu descreveria.

Eu acho que alguns jargões são incapazes de refletir a realidade fundamental: alguém tem de arcar com o fato de que o valor de mercado dos bens dos bancos é inferior ao valor das dívidas. Qualquer mecanismo que não imponha parte das perdas nos credores é um mecanismo que causará novos problemas no futuro.

[…]

Eu descreveria [a política do governo Obama] como “cruze os dedos e espere que chova dinheiro do paraíso”. É inacreditavelmente errado, a meu ver, pensar que manter as instituições financeiras vivas por mais seis meses, gastando trilhões de dólares com elas, de alguma forma vai provocar a solução mágica. Essa não é a lição da história. Não vai acontecer a mágica apenas pelo fato de você dar dinheiro a quem já demonstrou inabilidade para lidar com dinheiro. A reforma do setor é urgente e é basicamente simples. Bastam algumas revisões nas leis de falência [para permitir que bancos e financeiras peçam concordata e continuem funcionando]. E pode ser que a nacionalização funcione.

Mesmo se ela acontecer deveremos reformar as leis. Parece claro que o governo dos Estados Unidos, sob a Constituição atual, não pode simplesmente dizer ao Citigroup que ele agora é parte do governo. O governo não tem o poder de fazer isso, como outros países, como a Suécia, a China ou a Índia, nos quais o governo por decreto executivo pode declarar uma instituição financeira propriedade do governo.

O problema aqui é que qualquer tentrativa de fazer alguma coisa pode levar a uma longa e custosa batalha legal. Os que defendem a nacionalização dizem realisticamente que deveríamos ir ao Congresso e pedir a mudança da lei. Se é mesmo o caso, não há qualquer problema com a nacionalização desde que os credores arquem com parte substancial das perdas.

E penso que se o Congresso vai reescrever a lei, por que não revisar as leis de falência de instituições financeiras? É a mesma coisa. Em vez de ficarmos pendurados em palavras como “nacionalização” e o significado delas, é mais simples pensar na realidade econômica: quem vai arcar com as consequencias do fato de que os bens de um banco não cobrem suas dívidas? Quem vai pagar? É a questão econômica central. E depois há várias questões legalistas sobre como fazer para que as perdas sejam assumidas.”

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