OPINIÃO

Idéias e opiniões socialistas sobre Sorocaba

PARTE 6 – DIVISÃO DO TRABALHO E MANUFATURA

PARTE 6 

DIVISÃO DO TRABALHO E MANUFATURA 

 

 

Quando um capitalista reúne na sua fábrica os operários e cada um executa as diferentes operações que criam a mercadoria, ele dá à cooperação simples um caráter todo especial: ele estabelece a divisão do trabalho e a manufatura. A manufatura nada mais é do que um mecanismo de produção cujos órgãos são os seres humanos. 

Embora a manufatura se baseie sempre na divisão do trabalho, ele tem uma dupla origem: em alguns casos, a manufatura reuniu na mesma fábrica os diversos ofícios necessários à produção de uma mercadoria; estes ofícios estavam antes, como todas as atividades artesanais, separados e divididos entre si. Em outros casos, a manufatura dividiu as diferentes operações de um trabalho que antes formavam um todo na produção de uma mercadoria, e juntou-as na mesma fábrica. 

Por exemplo, uma carruagem, dessas que a gente vê no cinema, era o produto global doa trabalhos de numerosos artesãos independentes como o carpinteiro, o estofador, o costureiro, o serralheiro, o torneiro, o passamenteiro, o vidreiro, o pintor, o envernizador, o dourador, etc. A manufatura de carruagens reuniu todos esses diferentes artífices numa mesma fábrica, onde trabalham simultaneamente, colaborando um com o outro. Não se pode dourar uma carruagem antes de estar pronta; se, porém, muitas carruagens são feitas ao mesmo tempo, umas podem ser douradas enquanto outras se encontram em outras fases do processo de produção. A fabricação da agulha, por exemplo, foi dividida pela manufatura em mais de 20 operações parciais, que agora fazem parte do processo de fabricação total dessa agulha. A manufatura, portanto, ora reuniu vários ofícios em um só, ora dividiu um mesmo oficio em muitos. 

A força e os instrumentos de trabalho foram também multiplicados pela manufatura, mas ela os tornou terrivelmente técnicos e simples porque foram reduzidos a uma única e invariável operação elementar. 

São as grandes vantagens que o capital realiza na manufatura ao determinar essas tarefas elementares e repetitivas para diferentes forças de trabalho, pois a força de trabalho ganha muito em intensidade e precisão. Todos aqueles poros, aqueles pequenos intervalos diferentes entre as diferentes fases de um processo de elaboração de uma mercadoria que a gente encontrava no trabalhador isolado, desaparecem, quando, agora, esse mesmo trabalhador executa sempre a mesma operação. O trabalhador daqui para frente não precisa mais passar anos a fio, aprendendo um oficio, o que ele precisa e saber executar apenas uma das muitas operações que formam todo um oficio e essa operação ele aprende em muito pouco tempo. Esta diminuição de custos e de tempo é também uma diminuição de coisas necessárias ao trabalhador, ou seja, uma diminuição de tempo de trabalho necessário e um aumento correspondente de sobre-trabalho e mais valia. O capitalista, pois, verdadeiro parasita, à custa do trabalho alheio, cada vez mais rico e o trabalhador, por isso, sofrendo cada vez mais. 

Enquanto a cooperação simples, em geral, não pode modificar o modo de trabalhar do individuo, a manufatura o revoluciona inteiramente e se apodera da força individual de trabalho em suas raízes. Deforma monstruosamente o trabalhador, levando-o artificialmente a desenvolver uma habilidade parcial, à custa da repressão de um mundo de instintos e capacidades produtivas, lembrando aquela pratica das regiões platinas, onde se mata um animal, apenas para tirar-lhe a pele e o sebo. 

Não só trabalho é dividido e suas diferentes frações distribuídas entre os indivíduos, mas o próprio individuo é mutilado e transformado em instrumento automática de um trabalho parcial, tornando-se realidade, assim, a fábula absurda do patrício romano Menennius Agrippa, em que o ser humano aparece representado por um único fragmento de seu próprio corpo,o estômago.  Dugald Steawart chama os trabalhadores de manufatura autômatos vivos, empregados na fração de um trabalho. 

Originariamente, o trabalhador vendia sua força de trabalho ao capital por lhe faltarem os meios materiais para produzir uma mercadoria. Agora, sua força individual de trabalho não funciona se não estiver vendida ao capital; para poder funcionar, ela necessita daquele centro social que só existe na fábrica do capitalista. O povo eleito trazia escrito na testa que era propriedade de Jeová; do mesmo modo, a divisão do trabalho ferreteia o trabalhador com marca de seu proprietário: o capital. Storch dizia: “o operário que dominha um ofício completo pode trabalhar por toda a parte para se manter, o outro, o da manufatura, é quase apenas um acessório e, separado de seus colegas de trabalho, não tem capacidade, nem independência, sendo forçado a aceitar a norma que lhe querem impor”. 

As forças intelectuais da produção – continua Marx – se tornam bitoladas, ao se desenvolverem em apenas um sentido, tolhidas em tudo que não se enquadrem em sua unilateralidade. O que esses trabalhadores parciais perdem se concentra no capital que com eles se confronta. As forças intelectuais da produção material, com a divisão manufatureira do trabalho, aparecem ao operário como propriedades de outros e como poder que os domina. Esse processo de dissociação já começa com a cooperação simples, em que o capitalista representa para o trabalhador isolado a unidade e a vontade do trabalhador coletivo. 

Na manufatura, esse processo se desenvolve e mutila o trabalhador a ponto de reduzi-lo a uma partícula de si mesmo. Na indústria moderna, temos o processo completo, perfeito, que faz da ciência uma força produtiva independente do trabalho e que a recruta para servir ao capital. 

Na manufatura, o enriquecimento do trabalho coletivo e , por isso, do capital, em forças produtivas sociais, realiza-se as custas do empobrecimento da força produtiva do trabalhador individual. 

“A ignorância”, diz Ferguson, “é a mãe da indústria como é da superstição. O raciocínio e a imaginação estão sujeitos a erros; mas o hábito de mover o pé ou a mão não depende nem de um, nem de outra. Por isso, as manufaturas prosperam mais onde se requer menos inteligência, de modo que, não tendo necessidade de forças intelectuais, a fábrica pode ser considerada como uma máquina cujas peças são os seres humanos”.  

Marx, para ilustrar o caso desse trabalhador mutilado, nos fala de algumas manufaturas que, em meados do século 18, empregavam de preferência indivíduos meio idiotas, em certas operações simples, mas que eram segredos de fabricação. 

Smith disse sobre a imbecilidade do trabalhador parcial: “a inteligência da maior parte dos homens se forma necessariamente no decorrer de sua ocupação do dia-a-dia. Um homem, que passa toda a vida a executar um pequeno número de operações simples, não tem nenhuma condição desenvolver a sua inteligência, nem de exercitar a sua imaginação… Ele se torna, em geral, tão estúpido e ignorante quanto uma criatura humana pode vir a sê-lo”. E, continua Adam Smith: “A uniformidade da vida estacionária corrompe naturalmente a ânimo desse trabalhador… Chega mesmo a destruir a energia de seu corpo, tornando-o incapaz de empregar suas forças com vigor e perseverança em qualquer outra tarefa que não seja aquela para que foi adestrado. Assim, sua habilidade em seu oficio particular parece adquirida com o sacrifício de suas virtudes intelectuais, sociais e guerreiras. E em toda a sociedade desenvolvida e civilizada, esta é a condição a que ficam necessariamente reduzidos os pobres que trabalham, isto é, a grande massa do povo”  

Para remediar esta degeneração completa que resulta da divisão do trabalho. Adam Smith receita em doses prudentemente homeopáticas o ensino popular pago pelo Estado. Essa idéia de Smith, que era um inglês, foi combatida com coerência pelo seu tradutor e comentador francês, G. Garnier, que, no primeiro império francês, encontrou condições naturais para se transformar
em senador. Segundo esse sujeito, a instrução popular é contrária às leis da divisão do trabalho e adota – lá seria o mesmo que acabar com todo o nosso sistema social. Vejam como ele se expressou:
 

“Como todas as outras divisões do trabalho, a que existe entre o trabalho mecânico e o trabalho intelectual se torna mais acentuada e mais evidente à medida que a sociedade (e esse Garnier chama de “sociedade” o Estado com a propriedade da terra, o capital etc.) se torna mais rica. Como qualquer outra divisão do trabalho, esta é a conseqüência de progressos passados e causa de progressos futuros… deve então o governo contrariar essa divisão e retardar sua marcha natural? Deve empregar uma parte da receita pública para confundir e misturar as duas espécies de trabalho que tendem por si mesma se separar?”. 

“A arte de pensar, num tempo em que tudo está separado, pode mesmo se constituir em um ofício à parte”, escreveu Ferguson. 

Certa deformação física e espiritual é inseparável mesma da divisão do trabalho na sociedade. Mas, como o período manufatureiro leva muito mais longe a divisão social do trabalho e, como sua divisão peculiar, ataca o individuo em suas raízes vitais,é esse período que primeiro fornece o material e o impulso para a patologia industrial. Ramazzini, professor de medicina prática em Pádua, Itália, publicou em 1713 a sua obra “De Morbis Artificum” (Da morte artificial), sobre doenças entre artesãos. A lista de doenças que atingem o operário foi, naturalmente, muito aumentada com a indústria moderna, como demonstram os escritores que vieram depois dele: Dr. A. L. Fonterel, Paris, 1858; Eduardo Reich, Erlangen, 1868 e outros, além de uma pesquisa muito importante encomendada pela Sociedade de Artes e Ofícios, em 1854, na Inglaterra, sobre a saúde pública.  

“Subdividir um homem é executá-lo, se merece a pena de morte; é assassiná-lo se não merece. A subdivisão do trabalho é o assassinato de um povo”, afirmou o Dr. Urquhart, em 1865. 

Hegel, um dos grandes pensadores na história da filosofia, tinha opiniões muitos hieráticas, muito idealistas, sobre a divisão do trabalho. Vejam como ele colocou o problema em sua obra, Filosofia do Direito:  

“Por homem culto entendemos, em primeiro lugar, aquele que é capaz de fazer tudo o que os outros fazem”. 

Botando as coisas no chão, na sua realidade vamos concluir mais este capitulo, com essas palavras de Marx: 

 

“A divisão do trabalho, em sua forma capitalista, não é mais do que um método particular de produzir a mais-valia, ou de fazer aumentar, à custa do operário, os lucros do capital – é o que chamam de riqueza nacional. Ás custas do trabalhador desenvolve-se a força coletiva do trabalho em prol do capitalista. Criam-se novas condições para assegurar a dominação do capital sobre o trabalho. Essa forma de divisão do trabalho é uma fase necessária na formação econômica da sociedade, é um meio civilizado e refinado de exploração!”

21 Respostas to “PARTE 6 – DIVISÃO DO TRABALHO E MANUFATURA”

  1. Livia Maria said

    Olá.

    Gostaria de saber por que a manufatura não se constitui na forma de produção adequada para a acumulação capitalista.

    Grata,

    Livia Maria

    • anonimo said

      nao sei te responder isso

    • Luiz Carlos said

      A manufatura não constituiu a forma adequada para a acumulação capitalista pois o trabalhador dominava todo o processo de produção e era dono dos meios de produção, já no trabalho fabril o trabalhador era dominado pela máquina. Ele se especializava em determinada tarefa mas não dominava o produto final do seu trabalho.

      • Euziinha said

        Acho q vc se confundiu em dizer q na manufatura “o trabalhador dominava todo o processo de produção e era dono dos meios de produção” pq esse modo de produzir é característico do artesanato e não da manufatura. Na manufatura, a produção é feita manualmente e se caracteriza pela divisão social do trabalho, onde cada trabalhador é responsável por uma etapa da produção.

  2. Miguel Queiroz Jr said

    Olá.

    Gostaria de saber por que a manufatura não se constitui na forma de produção adequada para a acumulação capitalista.

    Grato,

  3. Luiz Fernando Lara said

    Olá Lívia!

    A resposta à sua pergunta, encontra-sa no início da parte 7 presente neste site e que trata da maquina e grande indústria, mas, principalmente está ligada à extraçao da mais valia que se intensifica (na forma relativa) através da maquinaria, pois essa intensificação com a manufatura iria até um determinado ponto (quando teria que se trabalhar com a mais valia absoluta) o que se tornaria inviável, principalmente com a legislação trabalhista que mais tarde iria por fim à exploração do trabalhador via jornadas excessivas de trabalho. Assim, essa mais valia absoluta desloca-se (de certa forma) para a mais valia relativa (maior produtividade em menor tempo de trabalho) proporcionado pela maquinaria (e atualmente pelas novas tecnologias de produção; produção flexível; flexibilidade nas relações de trabalho).

    Abraço

    Luiz Fernando

  4. fernanda said

    ola eu queria saber como e a divisao do trabalho dos seres humanos?

  5. o que é manufatura
    manufaturabrasil
    por que manufaturabrasil..

    por:natalia

    natih…….

  6. quero saber como e quando foi
    criado a manufatura no brasil.

    e o que é manufaturabrasil….

    por:aninha…

    aninha……….

  7. Clayton said

    PERGUNTA : A quem, afinal, deve pertencer a extraordinária Potência Coletiva decorrente do desenvolvimento do produto social do trabalho em escala nacional e mundial?

  8. katia assis said

    obrigada!!!

    sua opnião foi muito importante na construção do meu pensamento para o seminário.

  9. Jaaaaaaaah ' said

    Gostaria de saber como se chamam as pessoas que trabalham na Manufatura!

    Muiito Obrigado!!

  10. Em que local de trabalho são produzida
    as manufaturas?E também as ferramentas usadas para esse processo?

  11. qual o papel da manufatura relacionada aos padrões de vida de um pais

  12. eu queria saber as relaç~es de trabalho.Quais são?:

  13. LArissa said

    Queria saber o que confere a manufatura um caráter capitalista?

  14. Larissa said

    Eu quero saber como surgiu a nova divisão social do trabalho industrial-manufatureiro ?
    Grata , Larissa

  15. gustavo said

    oi,eu quero saber em que parte do texto se encontra o seculo XVII.

  16. mariness ilva said

    manufatura como era trabalho nesta modalidades

  17. mariness ilva said

    maquinofatura onde passou a ser o local de trabalho?

  18. Amanda said

    olá gostaria de que respondesse a essa pergunta:

    relacione manufatura com a divisão do trabalho

    obg

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