A literatura sumero-babilónica
4 - A literatura sumero-babilónica
Conhecemos um número bastante grande de obras literárias sumerianas e babilónicas do III e do II milénios.
O seu conteúdo refere-se, de um modo ou de outro, à religião. A maior parte são textos litúrgicos ou mágicos e as raras obras que não respeitam ao culto tratam, todavia, de assuntos religiosos, sobretudo mitológicos. Os escritos consagrados a outros temas são excepcionais.
A mitologia da religião oficial sai da mitologia popular, um dos principais elementos da tradição oral ou folclore. É por isso que encontramos nas obras sumero-babilónicas numerosos motivos folclóricos. Ressaltam com toda a nitidez nos mitos sobre a origem do mundo, dos homens, da agricultura, da vida sedentária, sob a forma de lendas ingénuas que se assemelham a qualquer conto popular do mesmo conteúdo.
Os poetas babilónicos utilizaram essas lendas sumerianas para criar obras curiosas. Uma das mais célebres é o poema intitulado, segundo as suas primeiras palavras, Quando no alto. Inspira-se no mito sumeriano da criação do mundo, cujo herói é Enlil; mas os sacerdotes babilónicos substituiram-no por Marduk.
A mais bela realização da literatura babilónica é o poema épico de Gilgamesh. Os primeiros textos que falam das façanhas desse valente eram em sumeriano; os escritores babilónicos, sem dú1ida da classe sacerdotal, modificaram-nos e trabalharam-nos. Foi assim que surgiu a epopeia babilónica de Gilgamesh, inscrita em doze grandes placas, cada uma das quais constitui, de certo modo, um canto distinto.
A sua ideia e as suas qualidades poéticas permitem colocá-lo entre as obras-primas da literatura mundial.
O poema não pertence, de modo nenhum, às obras litúrgicas. Não se liga nem a um mito determinado, nem a um rito qualquer.
O seu autor não fez mais que utilizar lendas e contos populares para criar uma obra independente sobre a vida e a morte.
Esse problema preocupava desde há muito tempo a sociedade sumero-babilónica. Havia mitos que procuravam explicar por que razão os deuses eram imortais e os homens mortais. Um deles apresenta como causa da mortalidade do homem a loucura do primeiro homem, Adapa, o benquisto filho do deus Ea, que lhe dera a grande sabedoria, mas não a vida eterna. A possibilidade de adquirir a imortalidade ofereceu-se um dia a Adapa, mas ele recusou-a.
Intimado a comparecer perante o deus Anum, por ter quebrado as asas ao Vento do Sul, foi prevenido por Ea de que lhe apresentariam o alimento e as águas de morto, e que não deveria prová-los. Durante o julgamento, os outros deuses tomaram a sua defesa, e Anum, suavizado, apresenta-lhe o alimento e as águas da vida. Mas Adapa não os
quis tomar. Admirado, Anum pergunta-lhe a razão. Ele responde: «Disse o outro: não comerás, não beberás.»
Anum mandou então que fosse lançado na Terra. Esta lenda, provavelmente inventada pelos sacerdotes, procura conciliar os homens com o seu destino, convencê-los da sua impotência diante dos deuses. Mas uma semelhante explicação da sua imortalidade não podia satisfazer os homens pensantes da sociedade babilónica. O poema de Gilgaxnesh
retoma o assunto sem dar, todavia, uma resposta consoladora.
Gilgamesh é um rei lendário de Uruk, cidade muito antiga da Suméria. Foi deificado depois da sua morte e em Uruk instituiu-se um culto em sua honra. O poema apresenta-o sob a forma de um gigante muito valente, belo e sábio, deus em dois terços.
Com Enkidu, seu amigo e companheiro de armas, realiza façanhas inauditas que lhe valem o amor da deusa Ishtar. Mas Gilgamesh repele as suas solicitações. Enfurecida, ela pretende perdê-lo, enviando contra ele um touro celeste que pisa as sementeiras; mas Gilgamesh e Enkidu matam-no. Então, a pedido de Ishtar, os deuses castigam
Enkidu com uma doença mortal. Gilgamesh, aterrado pela morte do seu amigo, fica com receio por si próprio:
Gilgainesh sobre Enkidu, seu amigo,
Chora amargamente e foge para o campo:
«Terei eu, também, de morrer como Eabani (‘)?
A dor penetrou-me no meu íntimo,
Receio a morte e fujo para o campo.»
() Outro nome de Enkidu.
Gilgamesh resolve aprofundar o mistério da vida e da morte. As lendas dizem-lhe que houve pessoas a quem os deuses concederam a imortalidade: Utnapishtim e sua mulher. Resolve efectuar uma viagem perigosa ao país divino, para lá encontrar Utnapishtim e perguntar-the como é que ele se tornou imortal.
Depois de longas peregrinações, vence terríveis obstáculos lançados ao seu caminho e chega à margem do mar celeste. Uma sabeia manda-o parar aí e diz-lhe que ele está a querer atingir um objectivo quimérico, pois que a imortalidade é somente reservada aos deuses. Ela aconselha-o a voltar para trás e a gozar a vida.
Mas esta moral, sem dúvida muito corrente no cume da sociedade babilónica, não satisfez a Gilgamesh. Continua a seguir o seu caminho e encontra Utnapishtixn, que, todavia, nada de consolador lhe tem para dizer. Utnapishtim conta-lhe que, durante o seu reinado em Shuruppak, os deuses irritados contra os homens tinham mandado sobre a terra o dilúvio.
Todos morreram, excepto Utnapishtim e a sua família, que a deusa Ea, que a estimava, tinha prevenido que se daria a catástrofe, incitando-os a construírem um barco.
Terminado o dilúvio, os deuses acolheram junto de si o casal real e deram-lhe a imortalidade. Para terminar, Utnapishtim pergunta a Gilgamesh:
“Qual dos deuses” é que te fará entrar na assembleia, para que tu encontres a vida que procuras? Como nenhum deus se encarrega de lhe prestar esse serviço, Gilgamesh procura, a conselho de Utnapishtim, vencer a morte através de vários artifícios mágicos, mas mesmo assim nada consegue.
Fatigado, desencorajado, volta ao país natal e faz vir do país dos mortos Enkidu para conhecer a lei da terra», a triste sorte dos súbditos de Nergal e de Ereshkia1.
O fim do poema perdeu-se. É de crer que Gilgamesh tenha morrido. Sem haver resolvido o problema da vida e da morte, esta obra é notável porque aí se encontram as primeiras tentativas de crítica da religião.
Gilgamesh ousa desafiar os deuses; toma mesmo, às vezes, um ar altivo, e os deuses são obrigados a tolerar essa rebelião. O poema influenciou enormemente a literatura dos outros povos da Antiguidade.
Entre as obras didácticas, uma das mais interessantes é o Diálogo entre o senhor e o escravo, que reflecte a desmoralização da alta sociedade esclavagista.
O senhor venceu segundo o princípio «goza a vida cá na terra». Acaba por ficar aniquilado: a guerra, a caça, o amor, a construção de casas, as conjuras – tudo o desgosta.
Desiludido com os deuses, chega à conclusão de que nem os sacrifícios nem a magia podem levar os deuses a «seguirem o homem como um cão». Só resta uma coisa a fazer:
«dar cabo do pescoço e lançar-se à água».
Os Babilónios também tinham compilações de máximas e regras morais, uma das quais remonta certamente, no seu conjunto, à época do Antigo Império. Todavia, vê-se aí ressaltar o medo das conjuras e a submissão aos exploradores.
Estas recomendações, dirigidas sem dúvida aos membros das comunidades, terminam pelo conselho, muito incisivo, de dizer aos deuses que: «O sacrifício aumenta a vida, a prece livra do pecado.»
Na literatura profana devem citar-se algumas inscrições reais do III milénio e do primeiro quartel do II milénio. Esses textos, que se aproximam das lendas pelo seu conteúdo, relatam acontecimentos históricos.
Tal é a grande inscrição de Urukagina, que descreve a miséria dos habitantes de Lagash, aquando do seu aparecimento, e fala das suas reformas. Tal é igualmente a inscrição do patési de Lagash, Eannatum, relativa à sua vitoriosa campanha contra o soberano de Umma.
MENAA Chanchivya disse
este texto me ayudou nas primeiras provas
abraços,
Menaa Sajak Chanchivya